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Narrativas noticiosa e literária

Há dois modos notáveis de narrar que chamamos arbitrariamente de noticioso e literário. Pelos nomes não se deve concluir que a narrativa noticiosa não aparece na literatura e que a narrativa literária não é usada em jornalismo ou em outro tipo de discurso. Vejamos as características de cada uma em relação a várias categorias:

Dramatização: A narrativa noticiosa não dramatiza. Contrariamente na narrativa literária, a dramatização é freqüente.

Tempos: A narrativa noticiosa usa a narração pretérita, geralmente contraída. Nela o uso dos tempos não favorece a presentificação e o envolvimento. A narrativa literária desfruta de maior liberdade no uso dos tempos verbais. A narração pode ser contraída, justa, dilatada, conforme a necessidade do envolvimento e presentificação. Na narrativa literária pode ocorrer narração em tempo real.

Narratologia

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Retórica do jornalismo

Arbitremos a existência de alguns princípios legítimos que norteiam o jornalismo sóbrio. Se são princípios utópicos ou mesmo de fachada, é questão para discussão filosófica. O fato é que esses princípios norteiam toda a Retórica do discurso jornalístico. Vejamos alguns deles:

Retórica

Objetividade: discurso objetivo é aquele que dá ao leitor a ciência dos fatos tais quais são, deixando a critério do leitor a valoração sobre eles.

Atratividade: dada a forma como o discurso jornalístico é lido, uma leitura seletiva, descontraída, raramente com objetivos precisos estabelecidos, a atratividade é considerada uma qualidade capital para o jornalismo.

Concisão: a concisão é uma exigência do leitor que não tem tempo a perder.

Simplicidade: a simplicidade deriva da pretensão do jornalismo de ampliar ao máximo o seu espectro de público potencial. Para isso, tem de ser acessível à faixa menos qualificada desse espectro.

Comunicabilidade: a boa comunicabilidade propicia ao leitor a rápida assimilação do texto.

Adequação ao perfil do leitor: o discurso jornalístico procura se colocar no nível do seu leitor típico, isso inclui ajustar o background, a competência lingüística, a sociabilidade.

Respeito ao idioma-padrão: essa regra é uma função da busca de sociabilidade.

Indução fonológica zero: é uma regra de estilo bastante difundida.

Rigor no estilo gráfico: o visual gráfico é alvo de grande atenção do jornalismo.

Regras práticas do discurso jornalístico

Coletando em diversos manuais informações sobre como deve ser o discurso jornalístico, chegamos a algumas conclusões comuns, algumas delas enumeradas a seguir.

Para textos em geral

  • Restrinja-se aos substantivos e verbos.
  • Evite adjetivos e advérbios.
  • Palavras curtas, frases curtas, parágrafos curtos, textos curtos.
  • Evite neologismos, arcaísmos, regionalismos, palavras chulas, gírias, jargões, raridades e modismos.
  • Evite frases subordinadas e coordenadas. Prefira o ponto a conjunções.
  • Não use superlativos e absolutos.
  • Use ordem sintática direta.
  • Uma frase para cada idéia.
  • Não repita, idéias, palavras, sintaxes.
  • Busque o equilíbrio entre o discurso formal e o coloquial.
  • Não use clichês.
  • Use frases afirmativas, em vez de negativas.
  • Use voz ativa. Evite a passiva.
  • Seja impessoal.
  • Suprima anomalias lingüísticas.
  • Controle a conotação dos termos usados, preferindo sempre os de conotação mais neutra.
  • Organize o texto do mais para o menos prioritário.
  • Os parágrafos devem ser independentes, facilitando a supressão do que se julga desnecessário.

Regras para títulos

  • Devem ser curtos  e atraentes.
  • Nos noticiosos, devem conter apenas o foco da notícia.
  • Use verbos no presente do indicativo.
  • Não repita em títulos de mesma matéria, mesma página, mesmo assunto.
  • A tipografia do título deve ser em corpo maior que a do texto.
  • Não hifenize títulos.
  • Não separe grupos fraseológicos, nomes próprios, o termo de seus adjuntos e partes de locuções.
  • Evite artigos.
  • Os segmentos de linha devem ter tamanhos harmonizados entre si.

Imparcialidade

Discurso imparcial é aquele que aborda um tema sem agregar sensações, impressões e opiniões do emissor ou de qualquer outra pessoa.

A possibilidade de o discurso ser realmente imparcial é uma questão filosófica. O que nos motiva aqui são os meios retóricos para aumentar a imparcialidade de um discurso. Isso envolve a manipulação de fatores relativos à:

Conotação: para ganhar em imparcialidade, é preciso evitar as formas conotadas que agregam valoração ao significado.

Atenuação/agravamento: para obter imparcialidade, é preciso evitar todos os artifícios que atenuam ou agravam a valoração da mensagem.

Ênfase: deve ser evitada, pois altera o status da mensagem.

Transferência icônica: altera a valoração do significado, por isso deve ser evitada.

Imparcialidade absoluta

A impossibilidade de uma imparcialidade absoluta se evidencia pelo fato de que qualquer notícia tem sempre existência, edição, extensão e ordem.

Se a notícia existe é porque se fez a escolha de publicá-la, o que em si é atribuição de valor jornalístico ao fato de que ela veicula.

Tendo uma edição, a notícia apresentará uma série de soluções como corpo tipográfico, família de tipos, etc. Todas essas escolhas tem valor e influenciam o leitor.

Tendo uma extensão, o leitor associará à extensão um valor.

A notícia entra em uma ordem de edição e em uma ordem temática, ambas com potencial para  influir na valoração do leitor.

A Retórica do Jornal Nacional. Para o bem e para o mal

O Jornal Nacional de 13/02/2007 levou ao ar uma matéria única, autêntico caso de estudo sobre os compromissos do jornalismo e o seu potencial de passar mensagens subliminares. Era uma matéria sobre a questão da maioridade penal que começou com trechos do depoimento dos pais do menino João Hélio Fernandes de 6 anos, martirizado por monstros no Rio de Janeiro em 07/02/2007. Os pais do menino concederam entrevista ainda sob o impacto da tragédia. Com os olhos marejados, lançaram pedidos às autoridades para que tomassem providências, inclusive revendo a maioridade penal para baixo. Um dos acusados pela morte do menino João tem 16 anos de idade e não será alcançado pela justiça como deseja o clamor popular por ser menor penal. Em seguida, o JN enfileirou o depoimento frio e asséptico de alguns especialistas do direito incluindo o da gélida presidente do STF, ministra e juíza Ellen Gracie, todos fazendo ressalvas ao rebaixamento da maioridade penal e sugerindo que essa discussão não pode ser feita em ambiente de forte comoção. O contraste foi brutal. O JN conseguiu com uma simples técnica de edição desacreditar os engravatados juristas, que talvez quisessem passar por serenos, mas ganharam a imagem de frios e insensíveis diante de uma população chocada com a tragédia humana de um garoto brutalmente assassinado. A seqüência de depoimentos ‘serenos’ de juristas após o depoimento autêntico e viceral dos pais do menino João deu xeque mate nos adversários da redução da maioridade penal. Para finalizar a peça, o depoimento do deputado Fernando Gabeira, o único a se colocar contra protelações e abafamentos do problema. Gabeira disse que não há ocasião propícia para discutir a violência, porque a sociedade vive em permanente sobressalto e é inútil aguardar por um momento ideal à reflexão. Os recursos retóricos do jornalismo podem ser usados para o bem e para o mal. O JN é especialista no assunto. Nesse caso, a manipulação proposital da edição reforçou a impressão de que existe um distanciamento, que beira o descaso, das autoridades relativamente à questão da maioridade penal.