Retórica da Literatura

A Retórica  literária é a mais difícil de delimitar. Em literatura, mimetiza-se o formal e o informal, o espontâneo e o elaborado, o oratório, o jornalístico, a discussão, o colóquio e o debate. Assim, a Retórica da literatura nestes casos será a Retórica do jornalístico, do colóquio, do debate, etc.

O caráter literário de um discurso não está dado a priori de uma estética que o suporte. A literariedade não é uma atribuição unânime, líquida e certa, é definida obra a obra, autor a autor, escola a escola, época a época. Não está congelada no Olimpo das idéias platônicas à espera de um estudioso diligente que a resgate. O que é literário para uns pode ser o antípoda do literário para outros. Enfim, literariedade é questão de opinião. Nunca haverá acordo para definir universalmente o que é o literário. Felizmente é assim.


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Que fim levou a poesia?

A poesia é uma arte menor, não em importância ou prestígio, mas por conta de seus números escassos. São poucos os poetas genuínos e reduzido o público que consome obras de poesia. Eu já me ocupei de poesia no passado, tanto que mantinha umas páginas mofadas na Internet com versos meus, todos lavrados há mais dez anos. Na época em que publiquei aquelas páginas poéticas virtuais eu tinha a convicção que a Internet seria muito útil à poesia. Realmente, a Internet eliminou restrições impostas aos livros impressos de poesia, que no geral vendem muito pouco. O tempo passou e fui fazer outras coisas na vida. Enquanto isso, as páginas foram visitadas e fazendo as contas direitinho acredito que alcancei mais leitores em mídia digital do que conseguiria na tradicional pasta de celulose. Sim, a Internet foi boa para os poetas, mas a poesia continua sendo uma arte menor.

Recentemente, resolvi repaginar aqueles textos tortos publicados em estilo web 1.0. Transferi quase todos para uma área nova afinada com as tendências da web. Agora dá para comentar, avaliar, compartilhar, buscar por tags, enfim, a apresentação da obra ficou mais contemporânea. Depois da reformulação fiquei motivado para pesquisar como anda a arte poética tanto em meio digital como no tradicional. Visitando o Submarino.com.br descobri que apenas 2% das obras literárias vendidas lá estão na categoria poesia. Na Amazon.com a situação é bem melhor, são mais de 260.000 títulos na categoria poesia, o que representa cerca de 10% de todos os títulos literários à venda. Fazendo buscas na Internet fiquei com a impressão de que aquele boom poético do início do milênio perdeu a força. Boa parte das páginas que visitei estavam desatualizadas e com cara de web 1.0. A poesia digital estourou junto com a bolha da Web em 2000? Existem páginas dedicadas à poesia no Facebook e alguns poetas reconhecidos têm página lá também. Descobri, quem diria, vários aplicativos de poesia para celular.

Pois é, depois de indagar e investigar consolidei minha opinião de que a poesia está viva como sempre, prestigiada como sempre por quem gosta dela e continua sendo uma arte menor. Como sempre.

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É possível ficar milionário vendendo e-books

Para quem pensava que esse tal de e-book não ia dar em nada a notícia é que estão surgindo os primeiros autores milionários do ramo. Talvez o melhor exemplo da geração dos escritores digitais nativos seja Amanda Hocking, jovem americana (26 anos) que cansou de procurar um editor disposto a publicar seus romances “paranormais” na forma impressa. Desiludida com as portas fechadas das editoras tradicionais ela optou pela publicação independente de suas obras na Internet em formato e-book. Em pouco tempo ultrapassou a marca de um milhão de exemplares vendidos. Agora que a autora caiu no gosto do público jovem com suas histórias povoadas por vampiros, feiticeiras e outros entes sobrenaturais as portas se abriram e ela fechou contrato milionário com uma editora americana.

O exemplo de Amanda é um caso isolado, obviamente. Ficar milionário vendendo e-books independentes é para poucos. A maioria dos autores não vai sair da condição de duro intelectualizado, mas o consolo é que na época do livro impresso a vida do escritor era ainda mais complicada. A publicação digital permite edições independentes a baixo custo e ninguém mais pode se lamentar que não conseguiu publicar seu livro. Fazer sucesso, porém, é outra história. Quem sabe pegando umas dicas com Amanda Hocking ou Paulo Coelho que também mantém boas relações com as mídias digitais.

A literatura nunca evolui

A literatura é a mesma desde Homero. Calma lá. Antes de iniciar o apedrejamento permitam-me esclarecer e no final vocês verão que a maioria das celeumas começam por meras divergências semânticas.

Para chegar onde quero começarei falando da linguagem dos índios: Será possível fazer poesia na língua dos ianomanis, que vivem lá na Amazônia, em estado de relativo isolamento, imersos numa cultura supostamente primitiva? Como expressar as angústias de um poeta do final do milênio em ianomani, se na realidade deles não existe asfalto, web, poluição, papel ou globalização e por conseguinte não existe vocabulário para expressar tais coisas. A língua dos ianomanis seria muito primitiva para nossa sofisticada poesia cosmopolita?

Bem, um dos grandes avanços da antropologia no século XX foi a constatação que não existem culturas primitivas. Se por um lado os ianomanis não têm nosso conhecimento científico e tecnológico, os elementos da sua cultura, tais como: cosmogonia, costumes, etiqueta, economia, religiosidade e linguagem formam um todo organizado e rico, totalmente adequado à realidade que os cerca e comparável em complexidade a qualquer rica sociedade européia. Nesta linha de pensamento, a língua dos ianomanis é adequada para a comunicação entre homens e não fica devendo muito, exceto pelo vocabulário associado ao avanço do conhecimento, a qualquer outro idioma de civilização avançada. E poesia, entre outras coisas, é comunicação. Sim, talvez a poesia seja possível em ianomani.

Agora, já municiados, voltemos à Literatura. É lamentável, mas muita gente que atua no meio literário ainda não absorveu as conclusões dos nossos vizinhos antropólogos e crê que tanto a linguagem como a arte são aspectos da cultura sujeito a evolução de qualidade, complexidade e adequação. Para estas pessoas existe um avanço linear, um progresso literário ao longo do tempo. Esta idéia da evolução literária, quando levada ao extremo nos faz concluir que a literatura de hoje é melhor que a de cem anos atrás. Talvez alguns desses arautos do progresso literário considerem Homero ridículo porque fala de deuses e mitos que nunca existiram. Imagine o quanto riem estes positivistas da Literatura quando se debruçam sobre A Divina Comédia de Dante.

Se, por outro lado, dermos ouvidos aos grandes antropólogos do século XX, como Malinowski e Levi Strauss, talvez cheguemos à conclusão que a grande Literatura não piora nem melhora com o tempo. Ela será sempre a resposta mais adequada para a realidade de uma época, pois, a arte é um daqueles elementos da cultura cuja complexidade, qualidade e adequação independem do desenvolvimento histórico, embora seja essencial mente histórica. O mesmo é válido para a linguagem. Não existe língua superior, nem língua primitiva. Certa vez, .um conhecido meu disse-me que a poesia brasileira não era difundida mundialmente como a de língua inglesa, porque o problema está na língua em si, que não tem a sonoridade adequada ao fazer poético. Tive que me segurar para não recorrer à boa e velha ignorância, tão útil nestas horas. Em outra ocasião, tive o desprazer de ler que a filosofia só era possível em alemão. Absurdos como estes citados proliferam por aí, mas todos tem uma raiz comum: a crença na superioridade de uma cultura sobre outra e na idéia da evolução de elementos culturais, que na verdade apenas mudam para se adequarem a uma realidade dada.

É neste sentido que para mim a literatura nunca evolui. A melhor literatura do século XX se ombreia com a melhor literatura da Grécia antiga. Felizmente é assim.

O rito de passagem da publicação

Vamos separar duas coisas distintas que nos dias de hoje cada vez menos acontecem juntas: divulgação e reconhecimento. Uma coisa é fazer uma obra chegar aos quatro cantos do país, outra é ser reconhecido como autor de talento.

No passado divulgação e reconhecimento costumavam andar juntos. Quando um autor era publicado por uma editora como a José Olympio significava que as duas coisas, divulgação e reconhecimento, estavam acontecendo ao mesmo tempo. A obra teria lugar nas estantes das boas livrarias e o simples fato de ser autor da JOE, valia mais como reconhecimento do que qualquer prêmio literário ou resenha positiva do crítico mais ranzinza.

A regra da publicação por uma editora de prestígio como parâmetro de reconhecimento do autor continua sólida. Uma obra lançada por uma editora renomada é notícia, tem noite de autógrafos, gera matéria na mídia. É um autêntico rito de passagem. Através de toda esta movimentação é que o autor consegue se posicionar no universo da produção cultural e é por ela que o leitor se informa sobre as obras de qualidade. Lembremos que reconhecimento é um dos poucos estímulos com que o autor conta para manter o ânimo de produzir.

Bem, estamos em uma era de sites, de livros eletrônicos,  de produção de livros barata e sob demanda, de comércio eletrônico, etc.. Em outras palavras, se o autor quiser, pode divulgar seu trabalho a baixo custo e com total independência. Estamos bem próximos de resolver os problemas logísticos da divulgação da obra. Mas como fica nesta nova realidade a questão do reconhecimento, pois, o autor de qualidade precisa ser reconhecido e o leitor precisa saber quem são os autores de qualidade. Que parâmetros teremos no futuro para avaliar a qualidade da informação que nos chega em enxurrada por inúmeros canais?

Quando um autor publica um site com sua obra ele se desvia do circuito editora, noite de autógrafos, resenhas na mídia, etc.. Sim, porque a resenha de sites ainda é incipiente. Aqueles parâmetros tradicionais de reconhecimento estão derretendo. Numa visão simplista poderíamos dizer que se o autor publicou em site então sua obra não era aquelas coisas. Mas nós temos Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Ferreira Gullar e vários outros, bem reconhecidos e com seus sites no ar.

Quando o sujeito que gosta de poesia vai a uma livraria média, encontra uns vinte ou trinta títulos para escolher, todos de autores que já passaram por vários crivos de qualidade. Quando o mesmo leitor faz uma busca com a palavra poesia na Internet recebe aquela avalanche de sites pela frente e tem que fazer a via crucis se quiser encontrar algo bom.

Aí está o desafio desta nova era da informação democratizada. Ela passa ao largo dos tradicionais filtros de qualidade do complexo ecossistema da cultura. Alguns desses mecanismos deveriam ser mantidos ou novos deviam ser criados para que seja possível o reconhecimento do autor, caso contrário chegará o dia em que nossas antenas só captarão ruído de fundo.