Arquivo da tag: livro

Como publicar um quase livro

O que é um livro? Digamos que é um texto longo, coeso, escrito por um autor, preparado e distribuído por uma editora e vendido em uma livraria. Como estamos em tempos digitais não importa qual mídia suporta o texto; pode ser papel, e-book reader, tablet ou voz gravada. No senso comum, livro é sempre um discurso longo que propicia algumas horas do leitura até ser assimilado. Longo quanto? Pelo menos umas 100 páginas ou 30.000 palavras, algo assim. Enfim, é a extensão e não a qualidade de um texto que o caracteriza como livro. Por razões diversas sempre houve dificuldade para autores publicarem em forma de livro textos de extensão intermediária, aqueles maiores que um artigo longo de revista e menores que um romance curto. A Amazon resolveu acabar com essa discriminação lançando o formato Kindle Single. Um Kindle Single é um texto de extensão média publicado em forma digital compatível com o e-book reader da Amazon. É um formato útil para uma série de propósitos como ensaios, novelas e manifestos, tanto que já foi chamado de panfleto digital. O preço de uma obra publicada no formato single será menor que o de um livro tradicional; na Amazon há obras ofertadas a US$ 0,99. Na cabeça das pessoas está arraigada a ideia de que o preço de um livro deve ser proporcional à sua extensão. Trata-se de uma mentalidade formada na era do livro impresso, afinal, livros com mais páginas consomem mais papel e recursos gráficos. Sinceramente, acredito que um livro, ou um quase-livro, vale pela qualidade de seu conteúdo independente de sua extensão, mas essa é uma outra conversa. A Amazon quer se posicionar em todos os segmentos e, por isso, criou o formato single. Se vai ser um sucesso teremos que aguardar para ver; espero que seja, pois quanto menos barreiras tivermos à circulação de ideias, melhor. Além do mais, o formato single é uma ideia digital e estou curioso para saber se o lado informatizado da indústria do livro vai assumir o controle da inovação do setor.

O Kindle single é um produto para a vida contemporânea escassa em tempo livre para leituras? As pessoas querem obras cada vez mais curtas? Qual o “comprimento” ideal para um livro? Primeiro vamos deixar claro que não falta tempo às pessoas. O dia continua tendo 24 horas e tudo é uma questão de prioridades. Alguns continuam lendo longos romances porque preferem uma convivência mais prolongada com o universo ficcional criado pelo autor. Basta lembrar que sagas como as de Harry Potter e O Senhor dos Aneis ocupam os jovens por longas horas de leitura sem que ninguém reclame pelo tempo gasto. Um livro deve ter o “comprimento” da ideia que veicula e, por isso iniciativas como a do Kindle Single são bem-vindas, afinal precisamos de formatos para todos os tipos de mensagens. Que ninguém fique sem dar seu recado por falta de canal de comunicação.

Quem jogaria um livro fora?

Contam que no auge do sucesso do livro Código Da Vinci a administração do metrô de Londres chegou a juntar mais de mil exemplares da obra na seção de achados e perdidos. Algumas teorias surgiram para explicar tamanho acúmulo de livros de Dan Brown. É mais perdido porque vende mais? Os exemplares foram abandonados por leitores frustrados com a qualidade da obra? Os londrinos largam livros lidos em locais públicos para que outras pessoas se beneficiem dos bens culturais? Deixando de lado as teorias engraçadinhas, temos que considerar a hipótese de que uma parte dos livros é simplesmente jogada fora após a leitura.

Não sei com que frequência livros são perdidos/abandonados/jogados fora no Brasil. Já vi algumas reportagens na TV mostrando lotes inteiros de livros didáticos em bom estado jogados no lixo. A desculpa esfarrapada dos responsáveis pelo descarte é que seriam edições desatualizadas. De qualquer forma, defasadas ou não, essas obras poderiam ir para a biblioteca ou, em último caso, para a reciclagem. A Editora Ediouro recebeu críticas recentemente ao propor que seus livros não vendidos fossem descartados pelas livrarias. Para comprovar a devolução do produto bastaria encaminhar pelo correio as capas das obras. Para não ficar falando apenas de casos lamentáveis vamos lembrar de projetos bacanas sobre “esquecimento” de livros. A ideia acontece em algumas cidades brasileiras e consiste em esquecer livros em locais públicos para que qualquer pessoa interessada possa lê-lo. Depois da leitura, o beneficiado deve esquecer o exemplar em local público para continuar o ciclo.

Fui educado para tratar o livro como um bem sagrado. Segundo a minha formação, livro deve ser cuidado com carinho, só pode ser emprestado a pessoas zelosas e como é um patrimônio deve ser passado de pai para filho. Talvez as pessoas estejam mudando sua percepção sobre os livros. Talvez o livro esteja se tornando um bem descartável como tantos outros. Tudo bem, não devemos ter apego fetichista a bens materiais. O que importa mesmo no livro é o seu conteúdo, o pensamento impresso nele. A mídia é transitória. Esse fato não justifica, porém, tratar livro como copo descartável. Aliás, o problema está em considerar qualquer bem como descartável, inclusive os copos.

Com o tempo, boa parte dos livros em papel será substituída por livros digitais, o que vai acabar com esse problema dos livros descartados. Só espero que os leitores não comecem a abandonar seus e-book-readers obsoletos nos bancos do metrô.