Cultura medida por livros lidos

O brasileiro lê em média 4,7 livros por ano. Esta é uma das conclusões do relatório do Instituto Pró-Livro divulgado semana passada. Temos que levar em conta, porém, que 3,4 livros dessa cota são obras lidas com finalidades escolares. Restam, portanto, 1,3 livros próximos da ideia de leitura espontânea. Esse índice magro considera leituras como a Bíblia. Convenhamos, as pessoas leem trechos da Bíblia geralmente por motivos religiosos e não seria ideal considerar esse tipo de leitura como uma experiência integral que vai da primeira à última página. Para complicar um pouco mais a situação, o Pró Livro levantou as obras mais populares entre os brasileiros leitores e ouso dizer que nem todas se sobressaem no quesito qualidade. Além disso, a pergunta dirigida aos pesquisados é um vago Você leu? O pesquisador não pergunta se leu integralmente, se assimilou. Tudo bem, o objetivo do relatório é nos informar os números brutos. Cabe a nós interpretá-los. Poderíamos continuar em nossa operação de purificação do índice de leitura, mas já deu para perceber que na prática o brasileiro lê menos do que um livro por ano em média. Oobjetivo deste post, porém, não é chorar pitangas por conta do nosso baixo índice de leitura e, sim quebrar paradigmas. Será que perguntando ao entrevistado se ele leu um livro nos últimos 3 meses estamos garimpando alguma informação útil para medir a cultura de um povo?

Índices são números que servem de termômetro para indicar alguma coisa de forma indireta. Nosso índice de leitura fica bem abaixo dos franceses que leem em média 7 livros por ano. Então os franceses são mais cultos? Livros lidos são indicação de cultura? Não falo de cultura no sentido antropológico (costumes, crenças, hábitos, etc) nem no sentido pedagógico (anos de escola). Falamos de cultura como aquela bagagem de conhecimento que se forma pela assimilação de bens culturais de valor como …. como bons livros, mas não apenas eles. Se quiséssemos medir a cultura de um povo de forma mais contemporânea teríamos que incluir outras perguntas nas pesquisas. Assistiu um bom filme nos últimos três meses? Foi a algum espetáculo teatral nos últimos três meses? Visitou algum museu? Foi a uma mostra? Acessou notícias pela Internet? Foi a uma palestra científica?

Livros lidos não são indicador suficiente para medir cultura. Essa é minha opinião pessoal, eu que já fui leitor compulsivo. No meu período de universitário ultrapassava com folga a cota de leitura que considero ideal e que seria de um livro lido por quinzena. Com o tempo, meu índice de leitura caiu consideravelmente. Estou falando apenas da leitura integral de livros. Ficam fora da conta revistas, jornais e sites de Internet. Não saberia dizer por que leio poucos livros hoje, mas acredito que seja pela competição de outros suportes. Facilidades como filmes em DVD ou acesso à Internet, ocuparam espaço em minha agenda que antes era devotado à leitura.


Veja também: Conjugador de verbos em Excel

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Uma pesquisa mais abrangente sobre nível cultural deveria mapear o tempo dedicado ao consumo de bens culturais independente de serem produzidos com celulose. Concordo totalmente que para algumas coisas o livro continua sendo imbatível. Só ele nos dá uma experiência plena quando o objetivo é tratar de assuntos complexos que exigem tempo  e concentração para serem expostos e assimilados. Desculpem-me os adeptos da supremacia do livro, mas cultura é mais do que livros.

A literatura nunca evolui

A literatura é a mesma desde Homero. Calma lá. Antes de iniciar o apedrejamento permitam-me esclarecer e no final vocês verão que a maioria das celeumas começam por meras divergências semânticas.

Para chegar onde quero começarei falando da linguagem dos índios: Será possível fazer poesia na língua dos ianomanis, que vivem lá na Amazônia, em estado de relativo isolamento, imersos numa cultura supostamente primitiva? Como expressar as angústias de um poeta do final do milênio em ianomani, se na realidade deles não existe asfalto, web, poluição, papel ou globalização e por conseguinte não existe vocabulário para expressar tais coisas. A língua dos ianomanis seria muito primitiva para nossa sofisticada poesia cosmopolita?

Bem, um dos grandes avanços da antropologia no século XX foi a constatação que não existem culturas primitivas. Se por um lado os ianomanis não têm nosso conhecimento científico e tecnológico, os elementos da sua cultura, tais como: cosmogonia, costumes, etiqueta, economia, religiosidade e linguagem formam um todo organizado e rico, totalmente adequado à realidade que os cerca e comparável em complexidade a qualquer rica sociedade européia. Nesta linha de pensamento, a língua dos ianomanis é adequada para a comunicação entre homens e não fica devendo muito, exceto pelo vocabulário associado ao avanço do conhecimento, a qualquer outro idioma de civilização avançada. E poesia, entre outras coisas, é comunicação. Sim, talvez a poesia seja possível em ianomani.

Agora, já municiados, voltemos à Literatura. É lamentável, mas muita gente que atua no meio literário ainda não absorveu as conclusões dos nossos vizinhos antropólogos e crê que tanto a linguagem como a arte são aspectos da cultura sujeito a evolução de qualidade, complexidade e adequação. Para estas pessoas existe um avanço linear, um progresso literário ao longo do tempo. Esta idéia da evolução literária, quando levada ao extremo nos faz concluir que a literatura de hoje é melhor que a de cem anos atrás. Talvez alguns desses arautos do progresso literário considerem Homero ridículo porque fala de deuses e mitos que nunca existiram. Imagine o quanto riem estes positivistas da Literatura quando se debruçam sobre A Divina Comédia de Dante.

Se, por outro lado, dermos ouvidos aos grandes antropólogos do século XX, como Malinowski e Levi Strauss, talvez cheguemos à conclusão que a grande Literatura não piora nem melhora com o tempo. Ela será sempre a resposta mais adequada para a realidade de uma época, pois, a arte é um daqueles elementos da cultura cuja complexidade, qualidade e adequação independem do desenvolvimento histórico, embora seja essencial mente histórica. O mesmo é válido para a linguagem. Não existe língua superior, nem língua primitiva. Certa vez, .um conhecido meu disse-me que a poesia brasileira não era difundida mundialmente como a de língua inglesa, porque o problema está na língua em si, que não tem a sonoridade adequada ao fazer poético. Tive que me segurar para não recorrer à boa e velha ignorância, tão útil nestas horas. Em outra ocasião, tive o desprazer de ler que a filosofia só era possível em alemão. Absurdos como estes citados proliferam por aí, mas todos tem uma raiz comum: a crença na superioridade de uma cultura sobre outra e na idéia da evolução de elementos culturais, que na verdade apenas mudam para se adequarem a uma realidade dada.

É neste sentido que para mim a literatura nunca evolui. A melhor literatura do século XX se ombreia com a melhor literatura da Grécia antiga. Felizmente é assim.

O rito de passagem da publicação

Vamos separar duas coisas distintas que nos dias de hoje cada vez menos acontecem juntas: divulgação e reconhecimento. Uma coisa é fazer uma obra chegar aos quatro cantos do país, outra é ser reconhecido como autor de talento.

No passado divulgação e reconhecimento costumavam andar juntos. Quando um autor era publicado por uma editora como a José Olympio significava que as duas coisas, divulgação e reconhecimento, estavam acontecendo ao mesmo tempo. A obra teria lugar nas estantes das boas livrarias e o simples fato de ser autor da JOE, valia mais como reconhecimento do que qualquer prêmio literário ou resenha positiva do crítico mais ranzinza.

A regra da publicação por uma editora de prestígio como parâmetro de reconhecimento do autor continua sólida. Uma obra lançada por uma editora renomada é notícia, tem noite de autógrafos, gera matéria na mídia. É um autêntico rito de passagem. Através de toda esta movimentação é que o autor consegue se posicionar no universo da produção cultural e é por ela que o leitor se informa sobre as obras de qualidade. Lembremos que reconhecimento é um dos poucos estímulos com que o autor conta para manter o ânimo de produzir.

Bem, estamos em uma era de sites, de livros eletrônicos,  de produção de livros barata e sob demanda, de comércio eletrônico, etc.. Em outras palavras, se o autor quiser, pode divulgar seu trabalho a baixo custo e com total independência. Estamos bem próximos de resolver os problemas logísticos da divulgação da obra. Mas como fica nesta nova realidade a questão do reconhecimento, pois, o autor de qualidade precisa ser reconhecido e o leitor precisa saber quem são os autores de qualidade. Que parâmetros teremos no futuro para avaliar a qualidade da informação que nos chega em enxurrada por inúmeros canais?

Quando um autor publica um site com sua obra ele se desvia do circuito editora, noite de autógrafos, resenhas na mídia, etc.. Sim, porque a resenha de sites ainda é incipiente. Aqueles parâmetros tradicionais de reconhecimento estão derretendo. Numa visão simplista poderíamos dizer que se o autor publicou em site então sua obra não era aquelas coisas. Mas nós temos Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Frederico Barbosa, Régis Bonvicino, Ferreira Gullar e vários outros, bem reconhecidos e com seus sites no ar.

Quando o sujeito que gosta de poesia vai a uma livraria média, encontra uns vinte ou trinta títulos para escolher, todos de autores que já passaram por vários crivos de qualidade. Quando o mesmo leitor faz uma busca com a palavra poesia na Internet recebe aquela avalanche de sites pela frente e tem que fazer a via crucis se quiser encontrar algo bom.

Aí está o desafio desta nova era da informação democratizada. Ela passa ao largo dos tradicionais filtros de qualidade do complexo ecossistema da cultura. Alguns desses mecanismos deveriam ser mantidos ou novos deviam ser criados para que seja possível o reconhecimento do autor, caso contrário chegará o dia em que nossas antenas só captarão ruído de fundo.

Edições esgotadas nunca mais

Se me perguntarem o que é melhor: livro de papel ou livro eletrônico, fico com os dois. Não porque me faça falta o doce contato sinestésico com a textura macia do sempre amigo livro. Da mesma forma não me considero um geek que adere a toda novidade tecnológica na primeira hora. Para que desejar o fim de uma ou outra mídia se ambas nos servem tão bem? A única coisa que lamento é que o livro eletrônico ainda engatinhe e vários problemas que ele resolveria ainda estão pendentes. Um desses problemas é o das edições esgotadas. Sugiro um teste aos leitores.

Logo abaixo há uma lista de vinte poetas brasileiros contemporâneos representativos que garimpei no site Jornal de Poesia. Não vou discutir a relevância da lista, mas  o que me parece evidente é que são 20 poetas de fato representativos. Escolhi uma lista de poetas para o teste dada a tradicional dificuldade de encontrar livros de poesia nas estantes das livrarias. Agora faça de conta que você é um interessado na poesia brasileira contemporânea que acaba de desembarcar no país. Você gostaria de conhecer os cinco livros mais importantes de cada poeta citado na lista. Ao todo você quer encontrar 100 livros. Faça uma busca pelas livrarias da sua cidade e veja o que encontra. Depois, tente outras táticas: vá às bibliotecas ao seu alcance, consulte as livrarias da Internet, contate diretamente as editoras ou percorra os sebos. Perceba que você vai se tornar praticamente um arqueólogo cultural. Será que no final da busca você conseguirá ultrapassar a marca de 50 livros? Eu fiz o teste numa das melhores livrarias aqui de Curitiba e encontrei 19 livros. Ressalvo que tamanho sucesso ocorreu porque dois autores da lista estavam presentes com livros de obra reunida. Se estivéssemos em plena era do e-book, que não se esgota, provavelmente eu não teria essa decepção além do que procurar na Internet é mais prático que peregrinar por livrarias, bibliotecas e editoras.

1º – Ferreira Gullar – 70 votos
2º – Ivan Junqueira – 56 votos
3º – Manoel de Barros – 56 votos
4º – Adélia Prado – 51 votos
5º – José Paulo Paes – 41 votos
6º – Haroldo de Campos – 41 votos
7º – Armando Freitas Filho – 40 votos
8º – Carlos Nejar – 40 votos
9º – Marly de Oliveira – 39 votos
10º – Augusto de Campos – 37 votos
11º – Affonso Romano de Sant’Anna – 37 votos
12º – Moacyr Felix – 37 votos
13º – Francisco Alvim – 36 votos
14º – Ruy Espinheira Filho – 36 votos
15º – Adriano Espínola – 35 votos
16º – Alexei Bueno – 33 votos
17º – Sebastião Uchoa Leite – 32 votos
18º – Lêdo Ivo – 30 votos
19º – Carlito Azevedo – 29 votos
20º – Bruno Tolentino – 28 votos

1024 livros para a vida

Durante a vida, um homem deve ler 1024 livros. Não 1024 livros quaisquer, mas os 1024 livros mais relevantes produzidos pelo engenho humano. Se você abraçar essa meta e mantiver um ritmo de um livro a cada quinzena, cumprirá o objetivo em menos de 50 anos. Começando na adolescência, chegará à terceira idade tranquilo com o objetivo atingido.
É claro que durante a vida você lerá jornais, Almanaque Biotônico Fontoura, lista telefônica e outras ricas fontes de cultura. Mas não esqueça dos 1024 livros.
E quais são os 1024 livros que se deve ler? Bem, escolhe-los é uma das melhores partes da missão. Eu, particularmente, incluiria uns 100 títulos de autores brasileiros e o restante de autores do mundo afora. A maioria dos livros, creio eu, seria de literatura, mas reservaria espaço para a Filosofia, Sociologia e outras áreas igualmente importantes.
Não esqueça de pelo menos fazer a sua lista de 1024 livros. Depois, é só começar a ler pelos próximos 50 anos.

A minha lista pessoal está no endereço a seguir: a lista