O que é a classe média?

Durante o período eleitoral a classe média foi muito citada. O governo falou bastante sobre uma nova classe média e a oposição considera que a classe média tradicional é seu maior reduto eleitoral na atualidade. Mas o que é a classe média, afinal?  Nessa hora penso naquela família dos comerciais de margarina em que temos um casal com dois filhos vivendo em uma casa confortável com todo o aparato tecnológico de bens. Há um carro médio seminovo na garagem; os filhos estudam em escola particular e todos têm a saúde protegida por um bom plano de saúde. Com alguma frequência a família de comercial de margarina vai ao restaurante e uma vez por ano viajam em férias. Ensino superior e até pós-graduação são comuns para os adultos desse grupo. Embora vaga, acredito que essa é a imagem da classe média para a maioria das pessoas. O governo federal, o mercado e os intelectuais, porém, têm definições distintas para esse segmento social.

Família margarina

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IBGE

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística faz levantamentos sobre a renda das famílias, mas evita compartimentá-las em classes.  Da mesma forma órgãos como o IPEA e o DIEESE não criam rótulos para faixas de renda.  Na tabela abaixo vemos, a distribuição da renda das famílias brasileiras em 2008 segundo o IBGE.

Renda familiar mensal em salários mínimos

% das famílias

Até 1

12,2

Mais de 1 a 2

21,48

Mais de 2 a 3

17,02

Mais de 3 a 5

20,08

Mais de 5 a 10

15,76

Mais de 10 a 20

6,52

Mais de 20

2,7

Sem rendimento

1,28

Sem declaração

2,95

TOTAL

100%

Poderíamos rotular a estratificação do IBGE da seguinte maneira:

  • Classe baixa. A tabela nos mostra que em 2008 cerca de 1/3 das famílias estavam em condição de pobreza ou miséria com renda inferior a dois salários mínimos.
  • Classe média. Aproximadamente metade das famílias se situava em uma faixa de renda média (entre 2 e 10 salários mínimos por mês).
  • Classe alta. Menos de 10% das famílias desfrutavam de boa condição econômica alcançando renda superior a 10 salários mínimos.

Mercado

A ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) adota o Critério de Classificação Econômica Brasil, CCEP ou simplesmente Critério Brasil, para classificar as famílias por padrão de vida. Trata-se de um sistema de pontuação que considera indicadores de consumo. Por esse método, a classe média estaria concentrada nas faixas B e C do modelo. O resumo do cálculo pode ser visto nas tabelas abaixo.

Posse de bens

 

Pontos

Quantidade

0 1 2 3 4 ou mais
Televisão em cores 0 1 2 3 4
Rádio 0 1 2 3 4
Banheiro 0 4 5 6 7
Automóvel 0 4 7 9 9
Empregada mensalista 0 3 4 4 4
Máquina de lavar 0 2 2 2 2
Videocassete e/ou DVD 0 2 2 2 2
Geladeira 0 4 4 4 4
Freezer 0 2 2 2 2

Grau de instrução do chefe da família

Pontos
Até 4º ano do Ensino Fundamental 0
Até 5º ano do Ensino Fundamental 1
Ensino Fundamental completo 2
Ensino Médio completo 4
Ensino superior completo 8

Classes

Classe Faixa de pontuação
A1 42 a 46
A2 35 a 41
B1 29 a 34
B2 23 a 28
C1 18 a 22
C2 14 a 17
D 8 a 13
E 0 a 7

O Critério Brasil é usado em pesquisas de mercado e não adota a renda como referência, mas indicadores de renda. Percebe-se que o modelo está desatualizado, tanto que a partir de 2015 alguns itens serão retirados da pesquisa como rádio e TV e novos serão incorporados no cálculo como computador, micro-ondas, secadora de roupa e motocicleta. Em 2015, a pesquisa vai considerar também se a família conta com água encanada e se mora em rua asfaltada. O Critério Brasil é sujeito a críticas. Por exemplo: há que se levar em conta que vários bens pesquisados já são acessíveis à população de renda mais baixa; embora o grau de instrução na maioria dos casos mantenha uma relação direta com renda não dá para dizer que alguém é rico por ter curso superior nem que seja pobre por ter pouca instrução. A preocupação maior do método ABEP, no entanto, é traçar perfis de consumo e, em função disso são selecionados os indicadores.

Em 2014 a ABEP passou a adotar também uma classificação em oito faixas de renda. A classe média corresponderia às faixas 4, 5 e 6.

Grupo Renda mensal até (em R$)
1 854,00
2 1.113,00
3 1.484,00
4 2.674,00
5 4.681,00
6 9.897,00
7 17.434,00
8 Acima de 17.434,00

Governo federal

O atual governo adota desde 2012 uma definição de classe média mais “generosa” ao incluir nesta faixa de renda famílias que ultrapassaram a linha da vulnerabilidade social e que, portanto, não precisariam ser beneficiadas por programas sociais como o bolsa família.

A Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) define sete grupos de renda:

Grupo Renda per capita R$ Renda familiar mensal R$
Extremamente pobre Até 81 Até 324
Pobre, mas não extremamente pobre 81 a 162 325 a 648
Vulnerável 163 a 291 649 a 1.164
Baixa classe média 292 a 441 1165 a 1.764
Média classe média 442 a 641 1.765 a 2.564
Alta classe média 641 a 1.019 2.565 a 4.076
Baixa classe alta 1.020 a 2.480 4.077 a 9.920
Alta classe alta Acima de 2.480 Acima de R$ 9.920

No critério da SAE primeiro são consideradas as faixas mais carentes, estabelecendo valores mínimos de renda que delimitam a miséria e a pobreza. A classe alta é definida como a parcela formada pelos 10% com maior renda. Por fim, a faixa de renda que está acima da linha de vulnerabilidade e abaixo dos 10% mais ricos é tratada como classe média.

A classificação da SAE tem o mérito de mapear melhor a condição das pessoas carentes, aquelas que estão na miséria (extremamente pobre) ou na pobreza (pobres e vulneráveis). Também acerta ao adotar um critério razoável para delimitar a classe alta. Outro ponto a favor do critério SAE é considerar renda per capita, pois as famílias têm diferentes tamanhos. Na tabela que apresentamos a renda familiar se refere ao tradicional grupo de quatro pessoas.

Uma das críticas à classificação da SAE é que ela foge à visão tradicional sobre a classe média. Agora pertencem à classe média famílias que no senso comum ainda são pobres e inclui na classe alta a maior parte das famílias que tradicionalmente reconhecemos como médias. Nessa nova visão, a família do comercial de margarina faz parte da elite.

A classificação do governo federal tratou como classe média os 50% da população que tem renda oscilando em torno da média nacional.  É a classe média real brasileira, enfim, mas está bem longe da classe média dos sonhos. Trata-se de uma classificação voltada para os interesses das políticas públicas do governo, tanto que não foi estabelecido um critério de atualização da tabela ao longo do tempo.

Renda x padrão de vida

Boa renda não é garantia de elevado padrão de vida. Existem diferenças de custo de vida entre regiões e as pessoas têm acesso diferente a benefícios que não costumam ser computados como renda. Vamos exemplificar imaginando duas famílias típicas de quatro integrantes: Os Silva que vivem em uma grande capital com alto custo de vida e os Santos que vivem em uma cidade média do interior.

A renda bruta da família Silva é de R$ 10.000,00 por mês, dos quais mais de R$ 1.900,00 são retidos na fonte pelo leão do imposto de renda. Os dois filhos do casal estudam em escola particular (R$ 750,00 de mensalidade para cada um) e a família gasta mensalmente R$ 600,00 com plano de saúde. Preocupado com o futuro, o Sr. Silva gasta mais de R$ 500,00 por mês com um plano de previdência complementar. Na grande capital o custo de vida é alto; a prestação do financiamento da casa própria é salgada; uma saída para o lazer familiar custa caro e os gastos com transporte são elevados.

A renda bruta dos Santos que vivem no interior é de R$ 5.000,00. O Sr. Santos entrega mais de R$ 500,00 todo mês ao leão do imposto.  Por sorte, a empresa do Sr. Santos subsidia um bom plano de saúde para sua família e ele desembolsa apenas R$ 100,00 com o plano. Os dois filhos da família Santos estudam em uma boa escola pública, coisa rara existe no Brasil, mas que existe em algumas ilhas de excelência. O lazer na cidade da família Santos é mais barato do que nas grandes capitais e os imóveis não são caros. Na cidade da família Santos tudo fica pertinho e não se gasta muito em transporte.

Em resumo, a renda bruta da família Silva é o dobro da família Santos, mas ambas desfrutam praticamente do mesmo padrão de vida.

Renda mensal x renda anual

O brasileiro está acostumado a pensar em renda mensal. Isso funciona para quem tem um salário como fonte principal de renda. Mesmo assim, acabamos esquecendo de computar os ganhos extras como 13º salário, adicional de férias, abono de PIS, participação de lucros na empresa, etc.  Além disso, os assalariados costumam ter dissídio anual. Para outras modalidades de renda o valor mensal sequer faz sentido. Agricultores dependem da safra para faturar, empresários enfrentam sazonalidade nos seus negócios e por aí vai. O ganho anual é a melhor maneira de expressar renda considerando que quase tudo na vida segue ciclo anual.

Classe média americana

Para comparação, veja uma classificação por faixa de renda das famílias dos Estados Unidos. Lá como aqui existem várias classificações e selecionei uma delas disponível na Wikipedia.

Classe Renda anual em US$ Renda mensal em R$
Classe alta (Upper class) Mais que 200.000 Mais que 38.000
Classe média alta (Uper middle class) 62.500 a 200.000 11.679 a 38.000
Classe média (Middle class) 32.000 a 62.500 6.130 a 11.679
Classe média baixa (Lower middle class) 15.000 a 32.000 2.875 a 6.130
Classe baixa (Lower class) Menos de 15.000 Menos e 2.875

Classificações ideológicas

Para a filósofa Marilena Chauí, a classe média é uma abominação. Simples assim. Nesse caso, temos uma classificação que não é baseada em renda, mas em perfil ideológico. Para a filósofa petista, a classe média seria um grupo de pessoas de bela renda que embora não faça parte da elite, reproduz sua ideologia e tem as mesmas aspirações da classe imediatamente acima na hierarquia social. A visão de Marilena Chauí de classe média de certa forma se aproxima do estereótipo do burguês, entidade odiada pelo esquerdismo raso e que tem como cacoetes o preconceito contra pobres, nordestinos, negros, minorias; que pratica ativamente a segregação de classes; que reverencia a cultura americana; que é conservadora em costumes e na política; que vive em conforto material por conta das funções que exerce na cadeia produtiva, geralmente em funções de colarinho branco a serviço dos interesses da elite.

De modo geral, as abordagens sobre classe média entre os pensadores de esquerda não são muito lisonjeiras, embora esses pensadores geralmente pertençam à classe média.  A Marilena Chauí fica fora dessa conta, pois na condição de professora titular da USP se enquadra na faixa de renda da classe alta brasileira. Uma análise isenta, porém, nos revela que a classe média antecipa tendências.  No passado, ela foi o suporte eleitoral que permitiu ao PT ganhar musculatura em uma época que os pobres não votavam em Lula. Atualmente, a situação se inverteu: a classe média, na sua maioria, abandonou o PT e, por conta disso passou a ser tratada como abominação.

Por fim


Veja também: Todos os países do mundo em Excel

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Passei minha infância e adolescência em uma família da classe C (atualmente chamada de nova classe média). Depois de formado, passei lentamente à condição de classe média remediada, o que me leva a crer que a mobilidade social já existe no Brasil há bastante tempo, ao contrário do que sugere a propaganda do governo. Ao ver a classificação da SAE para as classes sociais inicialmente fiquei eufórico com minha ascensão instantânea à classe alta, mas rapidamente farejei ali uma tentativa de dourar a realidade e conter pressões por programas sociais mais ousados. Continuo achando que sou um remediado querendo atingir o nirvana dos comerciais de margarina. Não me sinto uma abominação, até votei no Lula no segundo turno de 1989. Naquela época o PT era outro. Espero que mais e mais brasileiros ingressem na classe média. Para isso acontecer, ações de governo são importantes, mas o que realmente faz a diferença é arregaçar as mangas e trabalhar bastante. É o que fizeram meus pais, é o que fazemos nós e assim farão meus filhos.

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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