Níveis de análise linguística

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A Lingüística analisa o discurso decompondo-o em constituintes, mas faz isso a partir de mais de uma perspectiva. A lingüística opera em níveis de análise que formam um modelo de camadas concêntricas. Vamos entender como se dá a análise lingüística através de um exercício, tomando para exemplo o primeiro parágrafo do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Quando proferimos discursos, obedecemos a certas regras estabelecidas de segmentação. No discurso oral, por exemplo, segmentamos o discurso usando pausas e certas modulações específicas de entoação. No discurso escrito, segmentamos colocando espaços entre os caracteres, usando sinais de pontuação, letras maiúsculas em dadas posições, marcas de parágrafo, etc. Como esses recursos de segmentação perturbam a linha de raciocínio que pretendemos alinhavar, vamos eliminá-los, apresentando o texto de Machado de Assis em forma diferente da usual.

algumtempohesiteisedeviaabrirestasmemóriaspeloprincípiooupelofim
istoéseporiaemprimeirolugaromeunascimentoouminhamortesuposto

ousovulgarsejacomeçarpelonascimentoduasconsideraçõesmelevaram

aadotardiferentemétodoaprimeiraéqueeunãosoupropriamenteumautor
defuntomasumdefuntoautorparaquemacampafoioutroberçoasegunda
équeoescritoficariaassimmaisgalanteemaisnovomoisésquetambém
contouasuamortenãoapôsnoitróitomasnocaboadiferençaradicalentre
estelivroeopentateuco

Eliminando os recursos de segmentação que comumente usamos no discurso, nós o deixamos em condição ideal para nosso exercício de análise. Agora podemos segmentá-lo, não pelas regras intuitivas do uso do idioma, mas por critérios relevantes à análise lingüística.

Primeiro nível de análise

Nosso esforço será norteado pela busca de segmentos mínimos que atendam a uma dada condição. A condição para nosso primeiro nível de segmentação é a de que os segmentos gerados devem ser enunciados completos e aceitáveis em que as partes se relacionam entre si de forma auto contida. Estabelecida a condição, chegamos ao seguinte resultado:

algumtempohesiteisedeviaabrirestasmemóriaspeloprincípiooupelofim/

istoéseporiaemprimeirolugaromeunascimentoouminhamorte/

supostoousovulgarsejacomeçarpelonascimentoduasconsideraçõesme
levaramaadotardiferentemétodo/

aprimeiraéqueeunãosoupropriamenteumautordefuntomasumdefunto
autorparaquemacampafoioutroberço/

asegundaéqueoescritoficariaassimmaisgalanteemaisnovo/

moisésquetambémcontouasuamortenãoapôsnoitróitomasnocabo/

adiferençaradicalentreestelivroeopentateuco/

Mais tarde discutiremos com pormenor o que é um enunciado completo e aceitável em que as partes se relacionam entre si. Por hora, vamos aceitar a segmentação acima como exemplo do primeiro nível de análise lingüística: o nível sintático de período.

Segundo nível de análise

Vamos continuar o nosso exercício de segmentação. Nosso modelo de análise é concêntrico, ou seja, o segundo nível de segmentação se dá nos segmentos gerados pelo nível um. Por esta lógica, nosso próximo objetivo é identificar segmentos dentro dos segmentos obtidos na segmentação anterior. Vamos tentar agora obter segmentos menores que sejam completos, aceitáveis e mínimos. Para simplificar, vamos nos deter no primeiro trecho da obra de Machado. O resultado obtido é o seguinte.

algumtempohesitei

sedeviaabrirestasmemóriaspeloprincípiooupelofim/

Atingimos o nível de análise da frase.

Terceiro nível de análise

Agora a regra de segmentação muda. Não há mais como obter segmentos mínimos completos e aceitáveis. A regra passa a ser identificar segmentos mínimos que desempenham função definida na estrutura do enunciado e que possam ser formalmente tipificados.

algumtempo – hesitei – se – deviaabrir – estasmemórias – peloprincípiooupelofim

Mais tarde vamos discutir o que é um segmento mínimo de função definida e tipificável na estrutura do enunciado. Por enquanto, vamos considerar que nossa análise se situa no nível sintático de sintagma.

Quarto nível de análise

O nosso processo de análise concêntrica prossegue. Agora vamos segmentar os itens da operação anterior. Chegamos ao quarto nível de análise. A regra aqui é detectar segmentos mínimos que no sistema da língua têm existência autônoma, que sejam formas livres. Vejamos os resultados:

algum – tempo – hesitei – se – devia – abrir – estas – memórias – pelo – princípio – ou – pelo – fim

Discutiremos o que é uma forma mínima livre mais tarde, mas agora basta saber que o terceiro nível de análise é o nível morfológico de palavra e que palavras se agrupam em lexemas.

Quinto nível de análise

No quinto nível de análise vamos nos basear na regra do segmento mínimo portador de significação. Veja alguns exemplos:

alg – um – tempo – hesit – ei – se – dev – ia – abr – ir – est -a – s – mem – ória – s

Mais adiante veremos o que se entende por portar significação. O quinto nível de análise é o nível morfológico de morfema.

Sexto nível de análise

Neste nível ocorre uma ruptura na lógica de segmentação até então adotada. Até aqui tínhamos estabelecido que só segmentamos o que já vem segmentado do nível anterior. A segmentação do sexto nível de análise não permite obediência a esta regra. Vejamos o exemplo:

al – gum – tem – pó – hesi – tei – se – de – via a – brir – es – tas – me – mó – ri – as – pe – lo – prin – cí – pi-o – ou – pe – lo – fim

A segmentação de sexto nível, chamado nível fonológico de sílaba, não se sobrepõe inteiramente a nenhum nível anterior, mas vamos deixar a discussão de porque isso ocorre para mais tarde.

Sétimo nível de análise

O sétimo e último nível de segmentação possível é o fonológico de fonema. Veja o exemplo:

a – l – g – um – t – em – p – o – he – s – i – t -e – i – s – e – d – e – v – i – a – a – b – r – i – r – e – s – t – a – s – m – e – m – ó – r – i – a -s – p – e – l – o – p – r – in – c – í – p – i -o – o -u – p – e – l – o – f – im

A partir desse exercício de segmentação estabelecemos os níveis de análise lingüística do discurso. Cada nível de análise constitui uma área específica da abordagem lingüística O quadro seguinte resume os níveis.

Nível de análise Unidades formais
Fonológico Inferior: Fonema
Superior: Sílaba
Morfológico Inferior: Morfema
Intermediário: Palavra

Superior: Lexema

Sintático Inferior: Sintagma
Intermediária: Frase
Superior: Período

Unidades inferior e superior

Nos níveis lingüísticos encontramos constituintes que podem ser tratados como unidades formais mínima e máxima do nível.

Na camada mais interna temos o fonema como unidade inferior e a sílaba, como unidade superior. Na camada imediatamente superior temos o morfema e a palavra. No terceiro nível, mais externo, temos o sintagma, a frase e o período como unidades formais.

As sete unidades consideradas se relacionam concentricamente de forma que uma unidade mais externa pode ser, em alguns casos, formada por uma só unidade do nível imediatamente mais interno. Por exemplo: Consideremos a resposta em português para a pergunta:

- Pelé é ou não é o melhor jogador de todos os tempos?

- É.

A frase da resposta acima é formada por um único sintagma, formado por uma única palavra, composta por um único morfema, formado por uma única sílaba que é formada por um único fonema.

As duas articulações da língua

Alguns lingüistas consideram que existem apenas dois níveis de análise: a primeira e a segunda articulação.

A primeira articulação corresponde aos níveis morfológico e sintático. Nessa articulação, os constituintes comportam uma abordagem semântica. Considera-se que a morfologia é fortemente conectada com a sintaxe e que não procede separar uma de outra, tanto que se referem ao conjunto usando o termomorfossintaxe.

A segunda articulação corresponde ao nível fonológico. Nessa camada de análise os constituintes não portam significado. É uma camada em que não se faz abordagem semântica.

No nosso ponto de vista, as considerações em torno das duas articulações da língua são pertinentes, mas não há prejuízo em adotar a divisão tradicional, pois se trata apenas de diferentes critérios metodológicos de classificação, igualmente válidos.

A Lingüística não se esgota no nível sintático. Existem inúmeras áreas da Lingüística que tratam do discurso em nível superior ao sintático.  São exemplos a Semântica, a Sociolingüística, a Psicolingüística, a Estilística e a Retórica.

Estanqueidade dos níveis de análise

Para garantir mais qualidade e apuro na análise lingüística adotaremos, sempre que possível, o princípio metodológico da estanqueidade dos níveis de análise. Esse princípio preconiza que não se descreve os fatos de um nível lingüístico utilizando-se de categorias e conclusões de outro nível. Os três níveis que trataremos como estanques são: fonológico, morfossintático e semântico.

Vamos ilustrar o princípio com o exemplo da definição de frase. Frase é um conceito da camada morfossintática de análise. Poderíamos dizer que frase é uma unidade de pensamento, mas então, estaríamos fazendo uma abordagem semântica do conceito. A conclusão de que frase é uma unidade de pensamento tem sua relevância, mas não contribui para a melhoria da análise morfossintática. Por princípio metodológico, tentaremos descrever a frase unicamente a partir de categorias do nível morfossintático.

Os níveis lingüísticos, na verdade, se comunicam intensamente entre si e é de extrema importância estudar essa rede de relações, por isso, o princípio da estanqueidade deve ser encarado como meramente metodológico, uma forma de aguçar a análise e evitar a tentação das saídas fáceis. Há casos em que a obeservância à risca do principio nos leva a descrições tortuosas e de pouca relevância.

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Sobre Radamés

Engenheiro químico curitibano pela UFPR, produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.
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