Ortográficos

Antes de tratar das relações entre ortografia e Retórica, vamos comentar algo sobre a ortografia em  si, o que nos servirá de  ponto de partida para propósitos posteriores.

Ortografia é um conjunto de regras que disciplinam a emissão do discurso na sua forma escrita, que é a forma traduzida do discurso oral e pode adotar como unidade mínima o fonema, a sílaba, o morfema, a palavra. Também pode ter representação unitária para categorias superiores à palavra, como locuções, nomes, frases. A unidade mínima terá como correspondente na emissão visual, escrita, o grafema. As ortografias que usam o alfabeto romano são fonológicas. Ortografias que usam como unidade mínima a palavra, com alguma reserva, podem ser chamadas ideogrâmicas, pois remetem a palavras, que em geral remetem a idéias.

Ortografia racional

Todos que já se defrontaram com as dificuldades de aprendizado e as imperfeições das ortografias correntes, provavelmente, sonham com uma ortografia que tenha qualidades tais como simplicidade, economia, racionalidade, legibilidade, facilidade de aprendizado, univocidade, generalidade, etc. É o sonho da ortografia racional, do ‘se escreve como se lê’. Uma ortografia racional, entre outras, deveria atender um mínimo de preceitos como:

  • um fonema para um grafema e um grafema para um fonema, se fonológica.
  • unidade de estilo gráfico para o conjunto de grafemas.
  • uma versão cursiva para o conjunto de grafemas o mais parecida possível com a versão tipográfica.
  • alta legibilidade.
  • os grafemas mais simples e de traço rápido legados aos fonemas mais usados.
  • simplicidade.
  • regras para grandezas numéricas (numerais, datas, horários, unidades métricas, etc.), para foco (citações, diálogo, etc.), metalinguagem, grafia de variantes de pronúncia, entoação, estrangeirismos, abreviaturas, segmentação do texto, títulos, ressalvas (de conotação, significação e estilo), remissões, apartes, encraves, uso de grupos de grafemas (maiúsculas, minúsculas, etc.).

Ortografia-padrão

É aquela que independente de suas qualidades tem a referência oficial de forma socialmente preferida, de forma correta. A ortografia-padrão associa-se umbilicalmente ao idioma-padrão, tanto que oficialmente não se considera grafias para variantes regionais ou populares de pronúncia. Isso se explica porque na sua origem a ortografia foi estabelecida por grupos que detinham o privilégio da escrita e que se identificavam com a forma-padrão do idioma.

Algumas características da ortografia-padrão ocidental:

  • Privilégio do idioma-padrão: considera-se que a ortografia deve reproduzir na escrita apenas a variante-padrão do idioma. Assim, no vocabulário ortográfico brasileiro registra-se ‘mulher’ e não ‘muié’.
  • A ortografia-padrão abstrai a entoação, mesmo a comunicativa, salvo as exceções em que a entoação é o único meio que o código utiliza para estabelecer a comunicação, ocasiões raras, pois a entoação é esquecida completamente pelas regras ortográficas.
  • As ortografias-padrão são obras coletivas, fruto de um processo longo que valoriza a tradição, por isso é pouco econômica, racional e simplificada. Prova disso são as intermináveis exceções à regra, os fonemas que possuem mais de um grafema, os grafemas que representam mais de um fonema, os dígrafos, os fonemas que só são representados por dígrafos, etc.
  • As ortografias-padrão têm lacunas, que precisam ser preenchidas pelo usuário, geralmente por editores, segundo critérios próprios.
  • A ortografia-padrão tem alta sociabilidade. É bem aceita e o que dela se afasta é reprovado, em especial se por desconhecimento do padrão. O desvio do padrão é chamado de erro.

Recursos retóricos ortográficos

Muito do que se pode chamar de recursos retóricos ortográficos envolvem de algum modo a transgressão da  ortografia-padrão. É esta transgressão que permite aproximar, por exemplo, o discurso escrito da fala. É pela transgressão que se produzem efeitos de estranhamento, crítica ou especulação.

Desobedecendo a ortografia-padrão, pode-se grafar variantes de pronúncia, variantes culturais. Por outro lado, autores podem estabelecer suas próprias convenções ortográficas para grafar aspectos do discurso não cobertos pela ortografia-padrão, tais como foco narrativo, uso de metalinguagem, etc.

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