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O planeta é dos macacos ou dos símios?

No filme O planeta dos macacos: a origem, um dos personagens não humanos da história fala com indignação em dado momento: não sou um macaco, sou um símio. Gostei do filme e dessa cena em particular, tanto que me motivei a escrever esse post sobre questões linguísticas enquanto é tempo, já que segundo o filme, nós humanos não fazemos parte do futuro.

A rápida evolução cultural dos símios mostrada no filme inclui a habilidade da fala e vai além a ponto de permitir aos carismáticos seres peludos entenderem um dos fenômenos mais complexos da linguagem: a conotação. Macaco não é a mesma coisa que símio. No universo ficcional criado pelos roteiristas, macaco é uma forma desrespeitosa e depreciativa de se referir a várias espécies que habitam o planeta. A palavra símio, por outro lado e na perspectiva dos personagens não humanos do filme seria uma maneira mais digna de indicar seres que merecem respeito, que têm sentimentos e dignidade.

A essa altura, o leitor atento deve ter percebido que nessa imaginária discussão sobre o valor das palavras macaco e símio está bem exemplificado o uso da linguagem como instrumento de dominação. Os humanos opressores do filme se referem aos seus primos do reino animal como macacos, ou seja, espécies inferiores de valor meramente utilitário que tutelamos e cujas vidas podemos dispor segundo nossos interesses rasos.

O título original do filme Rise of the planet of the apes foi traduzido para Planeta dos macacos: a origem. Tá certo que lá no século XX quando tudo começou ainda não havia toda essa discussão em torno de sutilezas conotativas da linguagem dos símios em ascensão. O que importa é que a oposição macaco-símio é uma ótima metáfora de outras oposições bem conhecidas em nosso dia-a-dia. Sabemos muito bem que geralmente existe uma forma respeitosa e outra preconceituosa de se referir a grupos sociais. O que me deixou mais aliviado foi o fato de os macacos, digo símios, do filme ainda não terem chegado ao nível de regressão cultural conhecido como politicamente correto. Por enquanto, nenhum símio reivindica ser tratado como cidadão arbóreo-descendente.

Ler muito enlouquece?

A leitura faz bem. Embora alguns considerem que toda leitura é bem-vinda, prefiro me restringir às boas, deixando de fora diarreias mentais como o jornal Hora do Povo ou a revista Caras. A sabedoria popular, porém, diz que ler demais, se não enlouquece, pode deixar o cara meio esquisitão. Em uma fase da minha vida fui um leitor compulsivo, então posso dar meu testemunho de ex-quisitão. Realmente, excesso de leitura tem efeitos colaterais e pode deixar sequelas. No meu caso, o resíduo daquele período foi uma estante de mil livros e uma certa rabugice crônica.

A sabedoria popular não é levada a sério nos dias atuais a não ser que algum especialista comprove cientificamente que há fundamento na crendice da plebe. Nesse caso, creio que os eventuais malefícios do excesso de leitura ficarão sem um estudo adequado. Os especialistas que poderiam se debruçar sobre a questão, geralmente, são pessoas que leem muito. Será que algum deles estaria disposto a provar uma tese que depõe contra a corporação dos intelectuais?

Perdoem meu exagerado relativismo, mas meu objetivo não é provar se muita leitura é bom ou ruim. Sinceramente, acho  que ler compulsivamente é menos grave do que não ler. O que pretendo é combater toda ditadura de ideias sejam elas de maioria ou de minoria. O bom senso manda levar em conta a sabedoria popular sempre que possível,mas sem que o comportamento da maioria tenha que ser seguido por todos. Da mesma forma, é preciso ficar com um pé atrás sempre que um grupo deseja impor seus valores como padrão para toda a sociedade. Ler muito ou pouco deve ser uma decisão sua, portanto.

Leitores compulsivos são uma minoria desprezível da sociedade que contrasta com uma massa de não leitores. São pontos fora da curva, mas não consigo lembrar de nenhum bom motivo para eles buscarem alinhamento com a maioria nesse quesito.  Desempenhos excepcionais requerem esforços foram do normal. Além disso, quem precisa ser normal para ser feliz?

Puxar a descarga ou apertar a descarga?

A maneira como nos expressamos revela muito sobre nós mesmos. Houve um tempo em que as descargas com cordinha de puxar predominavam nos banheiros. Hoje, esse tipo de descarga é usado apenas em construções de baixo custo. As construções de melhor padrão usam descargas operadas com o aperto de um botão. O que concluímos disso? Se você diz puxar a descarga pode ser visto como uma pessoa antiga ou de baixo custo. Se você diz apertar a descarga poderá ser considerado como recente ou de alto custo.
A linguagem está cheia de rótulos colados às expressões. Como você se expressa sobre níveis de instrução? Você diz primário, ginásio e colegial; primeiro e segundo graus; ou então, ensino fundamental e médio? Como você se refere às pessoas que trabalham em uma empresa: empregados, funcionários ou colaboradores? O trabalhador bate o cartão ou passa o cartão?

No tempo das videolocadoras eu dizia que peguei uma fita. Meu filho, ao escutar isso tirava uma casquinha e perguntava se ia rebobinar o DVD. Pois é, a evolução tecnológica e social é mais rápida que nossa capacidade de reciclar as palavras. Pode ser que em breve a Informática chegue aos banheiros e seja possível clicar na descarga, mas ainda assim haverá uma saída infalível para se expressar de forma neutra. Após usar o banheiro é só dar descarga.

Tradutor português/internetês

No endereço abaixo você encontra um tradutor que converte textos em português padrão para um dialeto internetês conhecido como miguxês. Quem diria, o internetês tem até dialetos. Você logo vai perceber que o miguxês é um dialeto descolado para mocinhas.

Eu gosto das discussões sobre internetês porque nos levam a uma reflexão profunda sobre a língua em todos os seus níveis. Mas como esse post tem caracteres contados, vou apenas lembrar um conselho de Lech Walesa dado ao Presidente Lula em uma entrevista ao Fantástico. Era o início do primeiro mandato de Lula como presidente e Walesa disse que o presidente Lula dispunha de um aquário cheio de peixinhos e que para fazer uma sopa com ele bastaria ferver a água do aquário. Na Polônia, disse Walesa, o problema era outro: eles dispunham de uma sopa e queriam transformá-la em um aquário cheio de peixinhos. Vou adaptar a história do Walesa ao contexto dos tradutores: converter o português padrão em internetês é bem fácil, o problema é inventar um software que converta internetês em português padrão. De qualquer forma, o tradutor Miguxeitor é bem divertido. Vale a pena conferir para dar umas risadas.

http://aurelio.net/web/miguxeitor.html

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