A abolição do dicionário

Uma das coisas que o modernismo fez melhor foi instaurar a ditadura da simplicidade. Eu acho muito bom quando você pode escolher entre terno ou calça jeans. O problema começa quando você tem que usar calça jeans obrigatoriamente. Com o modernismo começou a vigorar uma lei informal e subentendida: a lei da abolição do dicionário. Ninguém mais quer usá-lo. As pessoas ficam indignadas quando leem um texto e desconhecem uma palavra. Eu, da minha parte, fico feliz ao encontrar palavras desconhecidas para mim, pois elas me dão a excelente oportunidade de ampliar meu vocabulário, recorrendo ao mestre Aurélio. E por que esta ojeriza ao dicionário? Tudo se dá em nome da simplicidade do texto, como se todos tivessem que imitar o jornalismo, como se todos os textos fossem anúncio de prancha de surfe.

Vamos voltar no tempo e entender como começou a ditadura da simplicidade. Começou na melhor das intenções, aliás, como todas as revoluções. Os escritores da década de vinte estavam fartos do lirismo comedido, das frases retorcidas, do vocabulário precioso, de toda aquela arenga parnasiana e sem vida. Seguindo a lei da ação e reação começaram a praticar um discurso coloquial, direto, simples e sem rebuscamento. Este foi o princípio legítimo. Depois veio a fase estalinista e a simplicidade se converteu em obrigação, quando já não era mais necessária. Você tem que expressar uma idéia com meia dúzia de palavras simples mesmo quando existe uma palavra menos freqüente que acolhe a idéia com perfeição.


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Talvez seja o tempo de pôr em prática a teoria de Ezra Pound da palavra justa. Creio que deve haver uma hierarquia: primeiro a justeza, a precisão, depois a simplicidade. Se pudermos contemplar as duas prioridades simultaneamente, ótimo, caso contrário, obedecemos a hierarquia. Nem que isto custe uma visita ao Aurélio. É claro que podemos insistir na teoria da simplicidade e caminhar a passos largos para um vocabulário de turista. Nesse caso, o dicionário ficaria tão fino que deixaria de ser editado, pois, ninguém precisaria consultá-lo.

Unfriend: palavra inglesa do ano

Unfriend é verbo e significa remover alguém da lista de amigos de uma rede social como Facebook ou Orkut. Unfriend foi escolhida como palavra inglesa do ano pela Oxford University Press. Outras palavras também são citadas como destaques de 2009. São palavras criadas há pouco tempo como netbook (computador portátil de dimensões, desempenho e preço reduzidos) e freemium (atributo dos serviços grátis na versão básica e cobrados na versão completa). Como acontece faz alguns anos, as palavras ligadas à tecnologia da informação aparecem em maior número na lista da Oxford, mas, em 2009 palavras das áreas econômica e ambiental também estão em presentes. É natural, pois estamos em ano de crise econômica e a questão ambiental a cada dia ganha mais importância no cotidiano das pessoas.

Aqui no Brasil, até onde eu sei, não temos eleição de palavras do ano. Para ser franco, nossos lexicógrafos estão devendo um dinamismo maior no registro de novas palavras do idioma. Imagino que a lista de palavras brasileiras ficaria parecida com a dos ingleses, uma vez que nosso léxico toma emprestadas muitas palavras do inglês. Netbook e freemium são exemplos de termos usados aqui no Brasil.

Estudiosos mais conservadores consideram que iniciativas como a da Oxford Press são afobadas. Sim, as palavras precisam de tempo para sedimentar antes de serem registradas em dicionário, mas se tudo neste mundo está acontecendo mais rápido, por que os processos oficiais da  língua haveriam de continuar leeeeeeentos? A Oxford Press coloca o idioma inglês em evidência quando publica sua lista, o que é bom tanto para o dinamismo da língua quanto para quem se ocupa dela.

Como se pede um x-salada (cheese-salada)?

x-salada

Todo mundo conhece aquele sanduíche que leva hambúrguer, salada (alface e tomate), maionese e queijo (cheese). A maioria das lanchonetes anuncia o produto como x-salada e outras, em menor número, como cheese-salada. O x-salada é um item da culinária fast food vendido aos milhões nas lanchonetes do Brasil, mas a sua ortografia ainda não foi fixada nos dicionários nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. A análise desse caso pitoresco renderia uma monografia a um desocupado, mas para os propósitos deste post bastam algumas perguntas sem resposta.

Por que x-salada não está no dicionário se hambúrguer e misto-quente estão? Se servir de consolo, bauru e beirute também não foram dicionarizados. Que estranhos desígnios fazem com que um sanduíche popular esteja no dicionário e outro não? É porque essas palavras nasceram como nomes fantasia, dirão uns. Nem todas as palavras são palavras para dicionário dirão outros. É preciso ter paciência, vão lembrar os mais zen.

Qual é a grafia correta para x-salada (cheese-salada)? Muita gente faz piada com o x dizendo que só o usa quem não sabe escrever cheese, mas aqui vai um lembrete: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é contrário ao uso de grafias estrangeiras nas palavras nacionais. Assim, cheese não é uma grafia portuguesa válida, pelo menos nos rigores do Acordo.

Como escrever o nome desse calórico sanduíche, então? Já não bastava a implicância dos nutricionistas e dos anti-americanos contra o cheese-salada e agora também a dos letrados. Que tal, escrevermos xis-salada ou tchis-salada? Pensando bem, temos que levar em conta as novas regras para o hífen. Será que o correto é xissalada ou chissalada? Nossa, essa reflexão toda me deu fome. Acho que vou ali na esquina pedir um x-bacon, ou seria xisbeicom?

Por que solucionática não está nos dicionários?

Dadá Maravilha

A palavra solucionática não consta no Dicionário Houaiss, nem no Aurélio, os dois dicionários mais importantes do Brasil. Poucas palavras na língua portuguesa têm uma biografia tão rica e documentada. Sabemos quem é o pai (Dadá Maravilha), quando foi criada (em uma conversa no avião entre Dadá e o presidente JK) e há vários documentos que tratam dela (incluindo uma crônica de Carlos Drummond de Andrade).

Solucionática ganhou notoriedade quando o jogador Dadá Maravilha soltou sua famosa frase durante entrevista após um jogo de futebol: “Não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática.” Fazendo uma pesquisa no Google encontramos a palavra em pleno uso. Ela dá nome a uma empresa de Informática, faz parte do nome de vários blogs, além de constar em vários sites associada às frases famosas do folclórico Dadá. Porém, não é uma palavra dicionarizada. Não vale dizer que uma palavra precisa se consolidar para aparecer no dicionário, afinal de contas, soucionática está em uso há mais de trinta anos. Talvez o problema com solucionática seja o fato de ela ser uma espécie de antipalavra. Ela foi inventada por um jogador de futebol de inguinorança notória. Não vem ao caso o fato de o Dadá ter uma criatividade exuberante para se expressar. Um gênio iletrado não pode criar uma palavra dicionarizada? Solucionática não é uma palavra, é uma piada, dirão alguns. Ou não? Está colocada a problemática. Qual seria a solucionática? Ops. Usei a antipalavra.

Não perca: Ouça a entrevista de Dadá Maravilha em que conta a história da sua famosa palavra. Entrevista ao Radar Cultura.

Crédito de imagem: J. Bosco

Essa língua portuguesa: o bundá

bundah

E se de repente alguém lhe dissesse: tire o seu bundá da cadeira, por favor.  Calma, não é um alemão sem domínio do idioma português. Bundá é apenas um traste, um agrupamento de utensílios velhos. Fui apresentado à esse especimen vocabular raro por acaso, durante uma consulta ao Aurélio. Bundá é sinônimo de cacaréus. Repare na transcrição a seguir que preciosidade é o verbete cacareus do Aurélio. É por essa e por outras que me ufano de me expressar em língua portuguesa brasileira, última flor do Lácio do além mar.

cacaréus
Substantivo masculino plural.
1. Trastes e utensílios velhos:
“A velha …. lá foi, …. alojar-se em casa do genro, com um batalhão de moleques, suas crias, e com os cacaréus ainda do tempo do defunto marido.” (Aluísio Azevedo, O Mulato, 14.) [Sin. (bras. na grande maioria): afavecos, cacarecos, cacaria, cacaréu, bagulho, brogúncias, bundá, candibá, caraminguás, muafos, mucufos, mucumbagem, mucumbu, quibembes, tralha, tralhada, xurumbambo.] ~ V. cacaréu.

Crédito de imagem: olhares.aeiou.pt