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Essa língua portuguesa!

A língua portuguesa não é para fracos. São tantos detalhes e exceções que resolvi fazer essa postagem com algumas irritantes (hilárias?) particularidades do nosso idioma.

Elétron ou electrão? Próton ou protão?

Fiz umas pesquisas sobre partículas elementares e acabei na Wikipedia. Eu gosto da grande enciclopédia colaborativa mas acho uma chatice quando os verbetes da Wikipedia em português ficam povoados por aquelas referências duplas ao português PT e BR. Nos assuntos ligados à Química aparecem inevitavelmente textos do tipo: … porque os elétrons (português brasileiro) ou também chamados electrões (português de Portugal)…
Mas, bah tchê (pt-br-rs) ou oxente (pt-br-ne) ou ó raios (pt-pt). Será que não dá para passar sem esse zelo politicamente correto? E agora que fiquei indignado vou além: será que existe só o português PT e o português BR? Ninguém vai levar em conta o português da Guiné-Bissau, de Moçambique ou do Timor Leste que, com toda certeza, se diferenciam dos dois PTs dominantes? Bem, é melhor ficar quieto senão logo os chatos de plantão vão querer escrever os textos da Wikipedia PT com todas as variantes possíveis dos 9 países da comunidade lusófona.

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Três maneiras de falar o nome dos lugares

De vez em quando gosto de fazer viagens sem sair do lugar. Eu fazia explorações no Google Maps e digitei Praga, pensando na capital da República Tcheca. Aquela incrível ferramenta multicultural prontamente se posicionou em uma cidade chamada Praha localizada no país Česká republika, conhecido em inglês como Czech Republic. O Google Maps se expressa bem em português, tcheco e inglês o que nos remete a três maneiras diferentes de falar o nome de lugares. Vou chamá-las de nacionalista, internacional e multicultural.

Nacionalista. A maneira nacionalista de citar topônimos (cidades, províncias, países, etc.) é recomendada no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Segundo o acordo a forma aportuguesada do topônimo é preferencial, logo use Londres, em vez de London. Essa maneira se volta para uma proteção nacionalista do idioma que é bem mais forte em Portugal do que no Brasil. Basta dizer que os gajos preferem operar o computador pelo rato, em vez de usar mouse.

Internacional. Na visão internacional os nomes dos lugares pode ser citado em inglês, uma vez que este seria o idioma internacional. Nem todo mundo concorda, em especial as pessoas que não simpatizam com a influência americana na política internacional. Mas então qual seria a verdadeira língua internacional? Na ONU há várias línguas consideradas internacionais levando em conta alcance cultural e a quantidade de pessoas que a falam; Se o critério fosse quantidade de falantes e influência geopolítica teríamos que considerar o mandarim como sério candidato a língua internacional. O Google Maps por ser de empresa americana usa o inglês em sua interface ao citar os países. O Brasil é apresentado em letras menores também como Brazil.

Multicultural. A forma multicultural prescreve que o nome do local seja citado como os nativos da região falam. Nessa linha, Japão não deve ser citado como Japan e sim como Nippon. Essa regra funciona bem na língua falada, mas traz problemas para a forma escrita. Nippon, por exemplo, é uma palavra escrita no alfabeto latino que é pouco usado no Japão. Se nós brasileiros tivermos que navegar por um mapa escrito nos alfabetos japoneses estamos fritos. Pelo mundo afora existem vários sistemas de escrita: cirílico, hebraico, árabe, hindú, etc. O multiculturalismo geralmente colide nessa barreira e nos obriga a criar versões aproximadas dos topônimos multiculturais em outros sistemas de escrita. O Google Maps não tem problemas com isso, pois se expressa bem em todos os sistemas de escrita relevantes.

Eu pensava que tinha esgotado o assunto até que visitei a Wikipedia e encontrei o verbete República Checa. Confesso que a falta da letra T me fez ler o texto de outra forma e o Google que é esperto tem alguns resultados alternativos para checa.

Os preconceito linguístico

Nos últimos dias tem se falado muito sobre o livro didático Por uma vida melhor que supostamente estaria assassinando a língua portuguesa e causando lesões irreversíveis nos cérebros dos jovens e adultos a quem a obra se destina. Um dos trechos do livro que causou polêmica está transcrito abaixo.

Muitas vezes, na norma popular, a concordância acontece de maneira diferente. Veja:

“Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.”

Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar ‘os livro?’.”

Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação,

você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico

O problema da frase em questão é obviamente de concordância numérica. A gramática normativa prescreve que deve haver concordância entre o artigo (os) e o substantivo que ele determina (livro) bem como entre este e os adjetivos associados a ele (ilustrado, interessante e emprestado). A gramática normativa, porém, dá conta apenas de uma parte da língua. Sempre que falamos usamos a gramática implícita que é o conjunto de regras implantado em nossas cabeças e que nos permite decodificar as mensagens que recebemos. Esta sim é completa e complexa. A gramática implícita nos permite julgar intuitivamente as frases abaixo.

  • Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados.
    Gramatical, bem formada e bem aceita.
  • Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.
    Gramatical, compreensível, mas com aceitabilidade restrita.
  • O livros ilustrado mais interessante estão emprestado.
    Agramatical e ambígua.
  • O livro ilustrados mais interessantes estão emprestados.
    Agramatical e ambígua.

A primeira frase segue os preceitos da concordância e não precisa de maiores explicações. A segunda frase é compreensível a qualquer falante do português porque atende a uma regra da gramática implícita que diz que o plural expresso pelo artigo é mandatório quando os demais termos da frase estão no singular. A terceira e quarta frase são agramaticais porque não respeitam nem a regra da concordância integral nem a regra implícita que obriga o artigo concordar com o substantivo se o segundo estiver no plural.

Esses exemplos mostram que a gramática implícita é bem mais rica do que o conjunto de regras descritos nos livros de gramática tradicional. O engraçado é que mesmo os falantes sem escolaridade dominam sem problemas a sofisticada gramática implícita da língua.

O problema com a expressão os livro não é de gramaticalidade. Ela é compreensível para qualquer falante que domina o idioma, mas o que a diferencia da frase em que se respeita a concordância? Podemos dizer que a expressão os livro tem um custo linguístico menor, ou seja, para falar frases nos rigores da concordância gastamos mais energia; precisamos de proficiência e prontidão. Falar sem cuidar da concordância é mais fácil. Como o respeito à concordância não é uma prática generalizada, o idioma cria seus mecanismos de economia que deveriam ser encarados com mais apreço, pois são práticos e democráticos na medida que ampliam o alcance da língua a todos os falantes. A expressão os livro é reconhecida pela gramática implícita, mas não pela gramática normativa que leva em conta apenas a norma culta da língua. A expressão é errada apenas nos limites da língua padrão, pois é nesse estreita faixa que se aplicam os rótulos certo e errado.

Eu li apenas um capítulo do livro Por uma vida melhor, exatamente o que contém as afirmações polêmicas e não encontrei nada que me parecesse descabido. Fiquei inicialmente em dúvida se os autores deveriam trazer para a sala de aula a discussão sobre certo e errado, mas pensando bem todos precisam estar conscientes de como funciona a exclusão pela língua, em especial, os excluídos. Acredito que a variante culta deve ser ensinada na escola, pois ela tem um importante papel social, mas sem esquecer que ela é uma entre várias. A discussão sobre preconceito linguístico, norma culta versus linguagem popular, certo e errado já está bem evoluída entre os estudiosos da língua e não coloca ninguém em pânico. Está na hora de esses assuntos chegarem até a população em geral. Infelizmente, quando isso acontece os velhos preconceituosos da gramática normativa saem de suas tocas para defender suas capitanias hereditárias da língua.

O úrtimo dedo de prosa caipira

Num sei se é impricância minha, mas inté parece que é só nesses meis de festança e arraiá que o pessoar ainda fala co aquele jeitão caipira de antigamente. A prosa do interiô tá sumindo sumindo e num sei inté quando vai durá. Às veis eu inté vejo os artista da tevê falando em caipireis naquelas novela de época da Grobo. Tem uns escritor que gosta de escrevê no jeito regionar e os violero de raiz, mas o povo que é povo, esse já num qué mais falá caipira. Na escola, os professô imprica cos caipira, nos jornar só usam um tar de portugueis padrão, que inté que é bão, mas não é só ele que nóis devia usá. A língua é do povo e pra ela ficá bem viçosa, carece que ela seja bem variada. Se ficá tudo iguar que graça é que vai tê?

Tarveiz um dia as pessoa comecem a tratá mió o protuguêis caipira, porque ele tamém é bonito, é cheio de palavra diferente que o povo da cidade nem sabe o que qué dizê. Eu sô um que num sei falá em caipirêis. Eu só arremédo, mas bem que gostaria de dominá essa tar de variante do interiô. Minha vontade era inté de escrevê uma gramática desse tipo de prosa. Por que que num dá pra usá caipirêis quando se escreve uma notícia de jornar? Por que que ninguém fala caipira no serviço? Porque é coisa de pobre sem curtura? Curtura é outra coisa, minha gente.

Vai chegá um dia em que poucos vão sabê como se fala o caipirêis e aí vão querê sarvá essa fala ameaçada de sumi de veiz. Eu vô fazendo a minha parte escrevendo esse posti de Interneti em caipirêis pra mor de mostrá que é possíver falá de coisa séria no meu capirirêis meio manco, que nem tem aquela graça toda que o verdadeiro matuto lá do grotão sabe falá muito mió.

O fim da letra cursiva

A letra cursiva, que é usada há séculos, corre risco de desaparecer do nosso cotidiano no intervalo de uma geração. Os dois motivos principais para essa extinção provável são as novas práticas pedagógicas e a evolução da Informática. A escrita latina tem quatro variantes principais mostradas a seguir.

Cada variante tem suas características próprias: as maiúsculas tipográficas são solenes; as minúsculas tipográficas têm boa legibilidade; as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida. Realmente, é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a pena do papel.

O problema é que a escrita cursiva exige melhor coordenação motora e seu aprendizado é mais demorado. Muitos educadores acham que não vale a pena estressar a criança em processo de alfabetização cobrando dela a escrita cursiva. Segundo eles, o melhor é focar em aspectos mais importantes da aquisição da escrita e não há problema se a criança usar só letra de forma, que é mais fácil de escrever, embora mais demorada. De certa forma, esse abandono pedagógico da letra cursiva vai de encontro à realidade do mundo informatizado. Para que gastar tempo com o desenvolvimento da caligrafia cursiva se no futuro o jovem pouco uso fará dessa habilidade. A ampliação do uso da Informática está tornando o lápis e a caneta em artefatos de usar na escola, pois em casa e no trabalho o instrumento principal de escrita certamente é o teclado.

Talvez não seja apenas a escrita cursiva que esteja ameaçada de extinção. Todas as formas de escrita manual correm risco. Devemos rir ou chorar? Eu nunca tive orgulho de minha caligrafia, que considero própria, mas sem aquele toque de beleza e estilo que me fariam lamentar caso deixasse de usá-la. Por outro lado, sempre apreciei minha habilidade de digitar com dez dedos sem olhar para o teclado. Tá certo que digitação não mostra a sua personalidade. Está bem que algumas belas caligrafias correm risco de desaparecer. Não me refiro à letra de professorinha, mas àqueles que realmente se expressam com estilo quando usam uma caneta. Bem, esses podem continuar escrevendo na pena pelo bem da arte. Já os médicos de garranchos indecifráveis que se convertam o mais rápido possível para o teclado e a impressora. Aliás, escrever em letra legível agora é uma exigência do código de ética da Medicina.