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A presidente ou a presidenta?

Uns dizem a presidente Dilma e outros falam presidenta Dilma. Quando falamos a presidente estamos seguindo o padrão encontrado em palavras como:

A ajudante
A estudante
A assistente
A aspirante
A regente
A comandante
A gerente
A superintendente
A governante

Substantivos terminados em -nte como os exemplificados acima são comuns para ambos os sexos. Eles designam pessoa que exerce certa função. Por exemplo: pessoa que estuda, pessoa que rege, pessoa que comanda. A diferenciação de gênero ocorre apenas no artigo que antecede a palavra. Até onde sei ninguém diz estudanta, comandanta ou gerenta. A palavra governanta é usada, mas em outro sentido. Curiosamente Presidenta, embora fuja à regra, pode. Essa forma está dicionarizada no Aurélio e designa a pessoa do sexo feminino que preside.

Falantes mais formais e adeptos das regras genéricas hão de preferir o uso da forma a presidente. Esse grupo, porém não exerce influência suficiente sobre o idioma a ponto de impedir as pessoas de usarem a outra forma (presidenta). Em assuntos de idioma o que vale é o uso e a autoridade. Se o povo usa não tem como ir contra e se quem resolve usar é influente, provavelmente fará seguidores. A presidente Dilma prefere a expressão presidenta. Talvez ela queira enfatizar o fato de ser a primeira mulher a presidir o Brasil. Fazendo isso ela coloca a palavra presidenta no mesmo grupo de:

Vereadora
Juíza
Deputada
Senadora
Prefeita
Governadora

Está certo que as palavras acima têm outra estrutura morfológica, própria de substantivos com duas formas distintas, uma para cada gênero. Por muito tempo palavras como juíza, senadora ou prefeita existiram apenas como possibilidades teóricas, visto que só recentemente surgiram as primeiras mulheres para ocupar os cargos associados com as palavras. Já existem pastoras, monjas e bispas. Como vai ficar se um dia mulher puder ser papa?

Como se vê, sempre é possível se agarrar a algum padrão para justificar o uso de uma expressão. Para quem prefere a estatística para balizar suas decisões, vale lembrar que no Google, a incidência da expressão a presidente praticamente empata com presidenta, ambas com cerca de 18 milhões de ocorrências nas buscas do Grande Irmão.

O que eu queria mostrar com esse post é a presença da questão de gênero na língua. Para mim, sinceramente não importa se a Dilma vai ser a presidente ou a presidenta. O que conta é que a partir de 1º. de janeiro ela é a chefa.

A abolição do dicionário

Uma das coisas que o modernismo fez melhor foi instaurar a ditadura da simplicidade. Eu acho muito bom quando você pode escolher entre terno ou calça jeans. O problema começa quando você tem que usar calça jeans obrigatoriamente. Com o modernismo começou a vigorar uma lei informal e subentendida: a lei da abolição do dicionário. Ninguém mais quer usá-lo. As pessoas ficam indignadas quando leem um texto e desconhecem uma palavra. Eu, da minha parte, fico feliz ao encontrar palavras desconhecidas para mim, pois elas me dão a excelente oportunidade de ampliar meu vocabulário, recorrendo ao mestre Aurélio. E por que esta ojeriza ao dicionário? Tudo se dá em nome da simplicidade do texto, como se todos tivessem que imitar o jornalismo, como se todos os textos fossem anúncio de prancha de surfe.

Vamos voltar no tempo e entender como começou a ditadura da simplicidade. Começou na melhor das intenções, aliás, como todas as revoluções. Os escritores da década de vinte estavam fartos do lirismo comedido, das frases retorcidas, do vocabulário precioso, de toda aquela arenga parnasiana e sem vida. Seguindo a lei da ação e reação começaram a praticar um discurso coloquial, direto, simples e sem rebuscamento. Este foi o princípio legítimo. Depois veio a fase estalinista e a simplicidade se converteu em obrigação, quando já não era mais necessária. Você tem que expressar uma idéia com meia dúzia de palavras simples mesmo quando existe uma palavra menos freqüente que acolhe a idéia com perfeição.

Talvez seja o tempo de pôr em prática a teoria de Ezra Pound da palavra justa. Creio que deve haver uma hierarquia: primeiro a justeza, a precisão, depois a simplicidade. Se pudermos contemplar as duas prioridades simultaneamente, ótimo, caso contrário, obedecemos a hierarquia. Nem que isto custe uma visita ao Aurélio. É claro que podemos insistir na teoria da simplicidade e caminhar a passos largos para um vocabulário de turista. Nesse caso, o dicionário ficaria tão fino que deixaria de ser editado, pois, ninguém precisaria consultá-lo.

A superioridade do internetês

Não sei me expressar em internetês como meus filhos, o que não me impede de ter uma certa admiração por essa variante de escrita que se difundiu pela Internet. Continuarei escrevendo na ortografia padrão, mas tenho certeza que o internetês vai influenciar profundamente as reformas ortográficas do futuro. Quando a garotada de hoje estiver no poder, vai querer incorporar alguns princípios do internetês na escrita oficial. E quais seriam as qualidades do Internetês? Nenhuma, diriam os tradicionalistas ranzinzas, mas olhando bem elas existem sim. Vejamos:

Fim das maiúsculas. As maiúsculas têm função meramente cerimonial na escrita oficial. Se fossem eliminadas, não haveria prejuízo nenhum ao entendimento da escrita.

Fim dos acentos. Quem precisa de acentos? Alguns alegam que os acentos orientam a leitura, mas isso é conversa fiada. Acentos não servem para nada, que o digam os ingleses.

Escreve-se como se lê. O internetês procura se aproxima do ideal de escrever como se lê, embora esteja longe de ser bem sucedido nessa empreita. Mesmo assim, é mais competente nesse intento do que a ortografia tradicional.

Abreviar sempre. O internetês é bom na arte de abreviar. Você vira vc. Sõ ficam as consoantes suficientes para captar a mensagem. Trata-se de uma técnica antiga e eficiente encontrada em outras ortografias.

Emoção na escrita. O internetês encontra recursos para expressar no texto as emoções de quem está escrevendo. Os emoticons e outros recursos que colocam no papel a entoação deixam o internetês mais expressivo que a ortografia oficial.

Criatividade. O internetês abusa da criatividade e com isso consegue efeitos muito interessantes. A escrita fica mais estética.

E sobre os defeitos do Internetês? Certamente existem, mas deixo a missão de identificá-los a cargo daqueles que defendem a expressão nos rigores do português castiço.

O úrtimo dedo de prosa caipira

Num sei se é impricância minha, mas inté parece que é só nesses meis de festança e arraiá que o pessoar ainda fala co aquele jeitão caipira de antigamente. A prosa do interiô tá sumindo sumindo e num sei inté quando vai durá. Às veis eu inté vejo os artista da tevê falando em caipireis naquelas novela de época da Grobo. Tem uns escritor que gosta de escrevê no jeito regionar e os violero de raiz, mas o povo que é povo, esse já num qué mais falá caipira. Na escola, os professô imprica cos caipira, nos jornar só usam um tar de portugueis padrão, que inté que é bão, mas não é só ele que nóis devia usá. A língua é do povo e pra ela ficá bem viçosa, carece que ela seja bem variada. Se ficá tudo iguar que graça é que vai tê?

Tarveiz um dia as pessoa comecem a tratá mió o protuguêis caipira, porque ele tamém é bonito, é cheio de palavra diferente que o povo da cidade nem sabe o que qué dizê. Eu sô um que num sei falá em caipirêis. Eu só arremédo, mas bem que gostaria de dominá essa tar de variante do interiô. Minha vontade era inté de escrevê uma gramática desse tipo de prosa. Por que que num dá pra usá caipirêis quando se escreve uma notícia de jornar? Por que que ninguém fala caipira no serviço? Porque é coisa de pobre sem curtura? Curtura é outra coisa, minha gente.

Vai chegá um dia em que poucos vão sabê como se fala o caipirêis e aí vão querê sarvá essa fala ameaçada de sumi de veiz. Eu vô fazendo a minha parte escrevendo esse posti de Interneti em caipirêis pra mor de mostrá que é possíver falá de coisa séria no meu capirirêis meio manco, que nem tem aquela graça toda que o verdadeiro matuto lá do grotão sabe falá muito mió.

O fim da letra cursiva

A letra cursiva, que é usada há séculos, corre risco de desaparecer do nosso cotidiano no intervalo de uma geração. Os dois motivos principais para essa extinção provável são as novas práticas pedagógicas e a evolução da Informática. A escrita latina tem quatro variantes principais mostradas a seguir.

Cada variante tem suas características próprias: as maiúsculas tipográficas são solenes; as minúsculas tipográficas têm boa legibilidade; as variantes cursivas foram desenvolvidas durante a Idade Média para permitir uma escrita manual mais rápida. Realmente, é possível alcançar uma velocidade de escrita maior quando se usa o método clássico de passar de uma letra a outra sem levantar a pena do papel.

O problema é que a escrita cursiva exige melhor coordenação motora e seu aprendizado é mais demorado. Muitos educadores acham que não vale a pena estressar a criança em processo de alfabetização cobrando dela a escrita cursiva. Segundo eles, o melhor é focar em aspectos mais importantes da aquisição da escrita e não há problema se a criança usar só letra de forma, que é mais fácil de escrever, embora mais demorada. De certa forma, esse abandono pedagógico da letra cursiva vai de encontro à realidade do mundo informatizado. Para que gastar tempo com o desenvolvimento da caligrafia cursiva se no futuro o jovem pouco uso fará dessa habilidade. A ampliação do uso da Informática está tornando o lápis e a caneta em artefatos de usar na escola, pois em casa e no trabalho o instrumento principal de escrita certamente é o teclado.

Talvez não seja apenas a escrita cursiva que esteja ameaçada de extinção. Todas as formas de escrita manual correm risco. Devemos rir ou chorar? Eu nunca tive orgulho de minha caligrafia, que considero própria, mas sem aquele toque de beleza e estilo que me fariam lamentar caso deixasse de usá-la. Por outro lado, sempre apreciei minha habilidade de digitar com dez dedos sem olhar para o teclado. Tá certo que digitação não mostra a sua personalidade. Está bem que algumas belas caligrafias correm risco de desaparecer. Não me refiro à letra de professorinha, mas àqueles que realmente se expressam com estilo quando usam uma caneta. Bem, esses podem continuar escrevendo na pena pelo bem da arte. Já os médicos de garranchos indecifráveis que se convertam o mais rápido possível para o teclado e a impressora. Aliás, escrever em letra legível agora é uma exigência do código de ética da Medicina.