Essa língua portuguesa!

A língua portuguesa não é para fracos. São tantos detalhes e exceções que resolvi fazer essa postagem com algumas irritantes (hilárias?) particularidades do nosso idioma.

Elétron ou electrão? Próton ou protão?

Fiz umas pesquisas sobre partículas elementares e acabei na Wikipedia. Eu gosto da grande enciclopédia colaborativa mas acho uma chatice quando os verbetes da Wikipedia em português ficam povoados por aquelas referências duplas ao português PT e BR. Nos assuntos ligados à Química aparecem inevitavelmente textos do tipo: … porque os elétrons (português brasileiro) ou também chamados electrões (português de Portugal)…
Mas, bah tchê (pt-br-rs) ou oxente (pt-br-ne) ou ó raios (pt-pt). Será que não dá para passar sem esse zelo politicamente correto? E agora que fiquei indignado vou além: será que existe só o português PT e o português BR? Ninguém vai levar em conta o português da Guiné-Bissau, de Moçambique ou do Timor Leste que, com toda certeza, se diferenciam dos dois PTs dominantes? Bem, é melhor ficar quieto senão logo os chatos de plantão vão querer escrever os textos da Wikipedia PT com todas as variantes possíveis dos 9 países da comunidade lusófona.

O que letras maiúsculas têm a ver com Saci-Pererê e Lúcifer

Aprendemos desde a infância que nomes próprios devem ser escritos com iniciais maiúsculas. Também está escrito no Fomulário Ortográfico que devemos escrever com iniciais maiúsculas os nomes de seres mitológicos, o que é uma redundância, pois esses nomes são próprios e estão incluídos na regra maior dos nomes próprios. Apesar disso, estranhamente, alguns gramáticos recomendam que se escreva os nomes de entidades do folclores brasileiro em minúsculas. Quer dizer: o nome dos seres da mitologia grega se escreve com iniciais maiúsculas (Minotauro, Cérbero, Esfinge), mas os coitados do Saci-Pererê, Caipora e Curupira pertencem a uma mitologia das classes baixas de um país subdesenvolvido e por isso não merecem a deferência de uma inicial maiúscula. Esse exemplo ilustra o preconceito que está embutido nas regras de uso de iniciais maiúsculas na nossa ortografia. Nomes de festas religiosas devem ser escritos em iniciais maiúsculas (Natal, Páscoa), mas Carnaval não, porque é uma festa pagã. A própria regra de usar iniciais maiúsculas como forma de deferência ao ser citado é um tiro que saiu pela culatra, pois nos obriga a escrever com iniciais maiúsculas nomes de seres que não são dignos de deferência alguma como Lúcifer e Mefistófeles.

Juscelino e Jucelino

Fiz uma pesquisa de sites no buscador líder da web com o argumento Jucelino e encontrei 27.400 ocorrências. Depois, tentei com Juscelino e obtive 531.000 resultados. Eu tinha em mente obter informações sobre o presidente JK e realmente, nas duas buscas, a maioria dos resultados trazia informações sobre ele. Algumas coisas me impressionaram nessa experiência simples. Primeiro, a grande quantidade de sites que falam sobre o presidente JK usando a grafia errada do seu nome. Em segundo lugar, agradou-me saber que a quantidade de sites que usam a grafia correta é praticamente 20 vezes superior a dos sites com grafia errada. Também achei interessante o fato de que o serviço de busca consegue detectar lapsos de digitação em certos casos. Digitei o argumento Presidente Jucelino e recebi 240.000 resultados mesmo tendo errado na grafia. Em quase todos, o nome Juscelino estava escrito corretamente. Bastou especificar melhor minha necessidade pare o serviço de busca perceber meu lapso.
Animado com essas conclusões, fiz outra experiência. Desta vez digitei Luis Inácio entre aspas para forçar busca com a frase exata e obtive 245.000 resultados. Em seguida, pesquisei com Luiz Inácio entre aspas e consegui 2.700.000 endereços. A maioria dos sites trazia informações sobre o presidente brasileiro. Novamente, os casos com grafia fora do padrão foram em número muito menor do que os casos com grafia correta.
Uma terceira experiência também apresentou resultados interessantes: Vigotski (22.000 ocorrências), Vigotsky (57.500 ocorrências) e Vygotsky (648.000 ocorrências). Como o nome do psicólogo russo se escreve na origem em cirílico, não dá para dizer que haja uma grafia oficial em português para esse nome, mas tudo indica que a terceira opção (Vygotsky) é a preferida da comunidade acadêmica.
A conclusão a que cheguei é que os textos da web têm um percentual de incorreção ortográfica minoritário, mas significativo.
Para finalizar, mais algumas curiosidades:
Cabelereiro (62.000 ocorrências) e cabeleireiro (261.000 ocorrências)
Estensão (22.300 ocorrências), estenção (735 ocorrências), estenssão (65 ocorrências ) e extensão (3.100.000 ocorrências).
Pesquisei também algumas variantes aceitáveis como:
Beringela (65.600 ocorrências) e berinjela (127.000 ocorrências)
Loira (1.940.000 ocorrências) e loura (445.000 ocorrências)
Ótica (1.310.000 ocorrências) e óptica (3.400.000 ocorrências)

O macho paca

A língua portuguesa é cheia de manhas e pode comprometer até o mais convicto machão. Se você conhece alguém que costuma dizer por aí “Sou macho paca” alerte o gajo sobre os riscos de usar essa expressão. O Dicionário Aurélio registra vários sentidos para a palavra paca. Um deles, obviamente, é o nome do bichinho da fauna brasileira: a simpática paca. Uma segunda possibilidade é funcionar como forma contraída da expressão pra caralho, que equivale a pra carambapra dedéu ou mesmo pra cacete. Mas não esqueçam senhores muito machos que paca também significa pederasta passivo. Realmente, o homem que se intitula macho paca está dando margem a muitos questionamentos sobre a sua masculinidade. Essa língua portuguesa!

O minutinho

longines

Tem um minutinho para ler este post? Acredito que já lhe pediram muitas vezes um minutinho de atenção, não é mesmo? Bem, o minuto seja ele do tipo grande, médio ou pequeno tem sempre 60 segundos. Provavelmente, nunca lhe pediram um minutão. Um minutão só apareceria em uma frase como: ele levou um minutão para correr os 100 m da pista de atletismo. Como o record mundial dos 100 m rasos está abaixo dos 10 segundos, levar 60 segundos para percorrer a pé esse percurso é praticamente uma eternidade esportiva. Toda essa conversa desparafusada é para chamar a atenção ao uso do grau do substantivo na língua portuguesa. No uso puro, o grau serve para agregar uma qualidade espacial ao substantivo. Quando digo que vi um cachorrinho, provavelmente se tratava de um cachorro de pequeno porte. O uso puro, entretanto, desencadeia uma série de usos derivados. No caso da pessoa que pede um minutinho, ela está pedindo exatamente um minuto, mas na visão dela esses 60 segundos são um tempo ínfimo que não fariam falta ao doador. Viu? Esse post lhe custou um reles minutinho. Espero que tenha sido proveitoso.

Risco de vida ou risco de morte?

Fiquem tranquilos. Não vou tentar provar qual das duas expressões está correta. Sinceramente, acho que as duas são equivalentes, mas fiz uma pesquisa na Internet e achei partidários ferrenhos de risco de vida que provam por A mais B que os defensores de risco de morte estão redondamente enganados. Estes, por sua vez, provam exatamente o oposto. A minha curiosidade surgiu depois de perceber que os jornalistas, de uns tempos para cá, só falam risco de morte. Mas por que, se até há pouco todo mundo falava risco de vida e não havia problema nenhum nisso? Ah, a língua tem seus modismos. Da noite para o dia uma expressão que caia bem fica terrivelmente démodé. Por falar nisso, você já conhecia a palavra démodé? Fiquei espantado quando o corretor automático do Word colocou dois acentos nela. Pensei que não havia em língua portuguesa palavra com dois acentos, mas corri ao Aurélio e ele me confirmou: sim, démodé leva dois acentos. Herança francesa. Mas voltando aos modismos da língua: De repente, aparece um desocupado que resolve implicar com risco de vida e sai por aí formulando teorias científicas sobre esse assunto tão fundamental. De implicância em implicância, a moda pega e agora todo mundo adere ao risco de morte. Que coisa linda é a língua. Dá espaço para todo mundo brilhar, principalmente os mais chatos. Acho que na moda de vestuário é assim também. Cuidado para não ficar démodé usando expressões fora de moda como démodé.

A solução para a calvície e para a calvice

Tenho recebido um insistente spam de xampu contra a CALVÍCIE que se apresenta como potente solução para a CALVICE. Não sei se o produto funciona, mas o spam traz as tradicionais fotos de carecas antes e depois. Felizmente, meus cabelos estão bem presos na cabeça e o motivo de eu estar blogando é falar sobre a grafia da palavra calvície. Os dicionários Aurélio e Houaiss não registram a variante calvice. Fiz uma pesquisa no Google com as duas grafias e o resultado foi o seguinte:

Calvice: 60.800 resultados.
Calvície: 1.500.000 resultados.

Mais uma vez fica comprovada a tese de que a Internet tende para a ortografia padrão. Nesse caso, menos de 4% das páginas registram a grafia não oficial. Avaliando por alto não dá para dizer que a grafia alternativa está associada a sites mambembes. Algumas das páginas que usam a grafia calvice estão em domínios de primeira linha. Da mesma forma, o uso da grafia oficial não garante que o produto para a calvície funcione. Por isso, prezado leitor atormentado pelo desmatamento capilar, escolha com cuidado a solução contra a calvície e lembre da marchinha: “é dos carecas que elas gostam mais”.

Sale 50% off com delivery para VIPs

Na cidade do Rio de Janeiro em 2009 foi criada uma lei que exige tradução das palavras estrangeiras em peças publicitárias. Sale tem que vir traduzida para liquidação, delivery como entrega em domicílio e por aí vai. O projeto é do vereador Roberto Monteiro (PCdoB). Não é de hoje que o PCdoB se envolve na defesa do idioma pátrio. Faz alguns anos, o então deputado federal Aldo Rebelo propôs projeto de lei proibindo o uso de estrangeirismos em território nacional sempre que houvesse vocabulário nacional equivalente. A proposta não aprovada do deputado Rebelo era mais radical do que a de seu colega carioca. O vereador Monteiro alega que a lei ajuda os brasileiros que não dominam outros idiomas além do português. Quem conhece um pouco a cabeça comuna do PCdoB, porém, sabe que a implicância deles é com as palavras-americanas-imperialistas que trazem o american-way-of-life aos povos-oprimidos-da-América-Latina. Exageros à parte, nesse caso, sou obrigado a concordar com o vereador. Tem marqueteiro que perdeu a noção do ridículo e quer deixar a vitrine da loja igualzinha àquela que viu na sua última viagem a NewYork. Só que o marqueteiro não faz isso por acaso. Se o faz é porque o público alvo da loja adora uma imitação deslavada de NY e LA. Ou Frisco, para os mais descolados.
No mundo globalizado, é ingenuidade supor que os idiomas podem se manter estanques. O intercâmbio é necessário, saudável e bem-vindo. Não dispomos de vocábulo local para palavras como blog ou wiki. Nesse caso, usamos as palavras estrangeiras e não há risco algum para nosso idioma ou cultura. Risco haveria se nos fechássemos às novas tecnologias.
O problema, como sempre, está nos extremos. Proibir os estrangeirismos como queria o deputado Rebelo seria lamentável. Imitar as vitrines americanas usando palavras como sale, off ou delivery é para dondocas de cabeça colonizada. Ah, se algum político viesse com uma lei mais abrangente. Parágrafo único: É proibido ser ridículo ao se expressar em língua portuguesa.

A estronha língua portuguesa

Fico imaginando os apuros que as professoras passam para ensinar às crianças como se fala e escreve em língua portuguesa. As crianças têm a maior facilidade para incorporar regras e descobrir a lógica das coisas. Deve ser frustrante para as crianças e para quem as ensina ter que demolir construções mentais elegantes e simples, substituindo-as por exceções intermináveis que só poluem nossos arquivos mentais. Vamos exemplificar com algumas palavras pitorescas do nosso idioma:

Campi. Plural de campus. Mas o plural em português não se forma acrescentando um S no final da palavra?

Démodé. Sabemos que as palavras em português têm no máximo um acento agudo, exceto essa palavra démodé citada inicialmente.

Know-how. Todo aluno sabe que em português não se usa as letras K nem W, a não ser em um calhau de palavras dicionarizadas e citadas no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa).

Habitat. É de conhecimento geral que consoantes travadas no final de palavra não pertencem ao habitat da língua aportuguesa.

Papisa. Se a Igreja Católica não permite que mulher reze missa, por que existe o feminino de papa?

Pizza. Eu adoro pitza, mas será que pedindo pizza receberei a verdadeira pitza napolitana?

Sushi. Aquele fonema chiado que aparece na culinária japonesa é escrito em português de muitas formas, às vezes com x, outras com ch e de vez em quando com sh.

Já tivemos tantas reformas ortográficas no Brasil, Infelizmente, nenhuma delas teve caráter simplificador. Somos liberais e aceitamos palavras estrangeiras sem problemas, inclusive continuamos a usar as regras ortográficas do país de origem da palavra.  Tudo bem, somo assim, mas há um preço a pagar por esse crescimento desordenado do idioma. Quem sabe um dia aprender e ensinar a língua se torne uma tarefa mais fácil.

A presidente ou a presidenta?

Uns diziam a presidente Dilma e outros falavam presidenta Dilma. Quando falamos a presidente estamos seguindo o padrão encontrado em palavras como:

A ajudante
A estudante
A assistente
A aspirante
A regente
A comandante
A gerente
A superintendente
A governante

Substantivos terminados em -nte como os exemplificados acima são comuns para ambos os sexos. Eles designam pessoa que exerce certa função. Por exemplo: pessoa que estuda, pessoa que rege, pessoa que comanda. A diferenciação de gênero ocorre apenas no artigo que antecede a palavra. Até onde sei ninguém diz estudantacomandanta ou gerenta. A palavra governanta é usada, mas em outro sentido. Curiosamente Presidenta, embora fuja à regra, pode. Essa forma está dicionarizada no Aurélio e designa a pessoa do sexo feminino que preside.

Falantes mais formais e adeptos das regras genéricas hão de preferir o uso da forma a presidente. Esse grupo, porém não exerce influência suficiente sobre o idioma a ponto de impedir as pessoas de usarem a outra forma (presidenta). Em assuntos de idioma o que vale é o uso e a autoridade. Se o povo usa não tem como ir contra e se quem resolve usar é influente, provavelmente fará seguidores. A ex-presidente Dilma prefere a expressão presidenta. Talvez ela queira enfatizar o fato de ser a primeira mulher a presidir o Brasil. Fazendo isso ela coloca a palavra presidenta no mesmo grupo de:

Vereadora
Juíza
Deputada
Senadora
Prefeita
Governadora

Está certo que as palavras acima têm outra estrutura morfológica, própria de substantivos com duas formas distintas, uma para cada gênero. Por muito tempo palavras como juízasenadora ou prefeita existiram apenas como possibilidades teóricas, visto que só recentemente surgiram as primeiras mulheres para ocupar os cargos associados com as palavras. Já existem pastoras, monjas e bispas. Como vai ficar se um dia mulher puder ser papa?

Como se vê, sempre é possível se agarrar a algum padrão para justificar o uso de uma expressão. Para quem prefere a estatística para balizar suas decisões, vale lembrar que no Google, a incidência da expressão a presidente praticamente empata com presidenta, ambas com milhões de ocorrências nas buscas do Grande Irmão.

O que eu queria mostrar com esse post é a presença da questão de gênero na língua. Para mim, sinceramente não importa se a Dilma foi presidente ou a presidenta. O que conta é que ela era a chefa.

O bundá

E se de repente alguém lhe dissesse: tire o seu bundá da cadeira, por favor.  Calma, não é um alemão sem domínio do idioma português. Bundá é apenas um traste, um agrupamento de utensílios velhos. Fui apresentado à esse especimen vocabular raro por acaso, durante uma consulta ao Aurélio. Bundá é sinônimo de cacaréus. Repare na transcrição a seguir que preciosidade é o verbete cacareus do Aurélio. É por essa e por outras que me ufano de me expressar em língua portuguesa brasileira, última flor do Lácio do além mar.

bundah

cacaréus
Substantivo masculino plural.
1. Trastes e utensílios velhos:
“A velha …. lá foi, …. alojar-se em casa do genro, com um batalhão de moleques, suas crias, e com os cacaréus ainda do tempo do defunto marido.” (Aluísio Azevedo, O Mulato, 14.) [Sin. (bras. na grande maioria): afavecos, cacarecos, cacaria, cacaréu, bagulho, brogúncias, bundá, candibá, caraminguás, muafos, mucufos, mucumbagem, mucumbu, quibembes, tralha, tralhada, xurumbambo.] ~ V. cacaréu.

Veja também:

Temos que falar o português correto? Uma questão polarizada há décadas.

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