Sentidos

O estudo do sentido em Lingüística tem uma dimensão filosófica, mas no momento o que vai nos ocupar é a distinção entre alguns tipos relevantes de sentido.

Sentidos próprio e figurado

Comumente afirma-se que certas ocorrências de discurso têm sentido próprio e sentido figurado. Geralmente os exemplos de tais ocorrências são metáforas. Assim, em ‘Maria é uma flor’ diz-se que ‘flor’ tem um sentido próprio e um sentido figurado. O sentido próprio é o mesmo do enunciado: ‘parte do vegetal que gera a semente’. O sentido figurado é o mesmo de ‘Maria, mulher bela, etc.’ O sentido próprio, na acepção tradicional não é próprio ao contexto, mas ao termo.

O sentido tradicionalmente dito próprio sempre corresponde ao que definimos aqui como sentido imediato do enunciado. Além disso, alguns autores o julgam como sendo o sentido preferencial, o que comumente ocorre, mas nem sempre.

O sentido dito figurado é o do enunciado que substitui a metáfora, e que em leitura imediata leva à mesma mensagem que se obtém pela decifração da metáfora.

O conceito de sentido próprio nasce do mito da existência da leitura ingênua, que ocorre esporadicamente, é verdade, mas nunca mais que esporadicamente.

Não há muito o que criticar na adoção dos conceitos de sentido próprio e sentido figurado, pois ela abre um caminho de abordagem do fenômeno da metáfora. O que é passível de crítica é a atribuição de status diferenciado para cada uma das categorias. Tradicionalmente o sentido próprio carrega uma conotação de sentido ‘natural’, sentido ‘primeiro’.

Invertendo a perspectiva, com os mesmos argumentos, poderíamos afirmar que ‘natural’, ‘primeiro’ é o sentido figurado, afinal, é o sentido figurado que possibilita a correta interpretação do enunciado e não o sentido próprio. Se o sentido figurado é o ‘verdadeiro’ para o enunciado, por que não chamá-lo de ‘natural’, ‘primeiro’?

Pela lógica da Retórica tradicional, essa inversão de perspectiva não é possível, pois o sentido figurado está impregnado de uma conotação desfavorável. O sentido figurado é visto como anormal e o sentido próprio, não. Ele carrega uma conotação positiva, logo, é natural, primeiro.

A Retórica tradicional é impregnada de moralismo e estetização e até a geração de categorias se ressente disso. Essa tendência para atribuir status às categorias é uma constante do pensamento antigo, cuja índole era hierarquizante, sempre buscando uma estrutura piramidal para o conhecimento, o que se estende até hoje em algumas teorias modernas.

Ainda hoje, apesar da imparcialidade típica e necessária ao conhecimento científico, vemos conotações de valor sendo atribuídas a categorias retóricas a partir de considerações totalmente externas a ela. Um exemplo: o retórico que tenha para si a convicção de que a qualidade de qualquer discurso se fundamenta na sua novidade, originalidade, imprevisibilidade, tenderá a descrever os recursos retóricos como ‘desvios da normalidade’, pois o que lhe interessa é pôr esses recursos retóricos a serviço de sua concepção estética.

Sentido imediato

Sentido imediato é o que resulta de uma leitura imediata que, com certa reserva, poderia ser chamada de leitura ingênua ou leitura de máquina de ler.

Uma leitura imediata é aquela em que se supõe a existência de uma série de premissas que restringem a decodificação tais como:

  • As frases seguem modelos completos de oração da língua.
  • O discurso é lógico.
  • Se a forma usada no discurso é a mesma usada para estabelecer identidades lógicas ou atribuições, então, tem-se, respectivamente, identidade lógica e atribuição.
  • Os significados são os encontrados no dicionário.
  • Existe concordância entre termos sintáticos.
  • Abstrai-se a conotação.
  • Supõe-se que não há anomalias lingüísticas.
  • Abstrai-se o gestual, o entoativo e editorial enquanto modificadores do código lingüístico.
  • Supõe-se pertinência ao contexto.
  • Abstrai-se iconias.
  • Abstrai-se alegorias, ironias, paráfrases, trocadilhos, etc.
  • Não se concebe a existência de locuções e frases feitas.
  • Supõe-se que o uso do discurso é comunicativo. Abstrai-se o uso expressivo, cerimonial.

Admitindo essas premissas, o discurso será indecifrável, ininteligível ou compreendido parcialmente toda vez que nele surgirem elipses, metáforas, metonímias, oxímoros, ironias, alegorias, anomalias, etc. Também passam despercebidas as conotações, as iconias, os modificadores gestuais, entoativos, editoriais, etc.

Na verdade, não existe o leitor absolutamente ingênuo, que se comporte como uma máquina de ler, o que faz do conceito de leitura imediata apenas um pressuposto metodológico. O que existe são ocorrências eventuais que se aproximam de uma leitura imediata, como quando alguém toma o sentido literal pelo figurado, quando não capta uma ironia ou fica perplexo diante de um oxímoro.

Há quem chame o discurso que admite leitura imediata de grau zero da escritura, identificando-a como uma forma mais primitiva de expressão. Esse grau zero não tem realidade, é apenas um pressuposto. Os recursos de Retórica são anteriores a ele.

Sentido preferencial

Para compreender o sentido preferencial é preciso conceber o enunciado descontextualizado ou em contexto de dicionário. Quando um enunciado é realizado em contexto muito rarefeito, como é o contexto em que se encontra uma palavra no dicionário, dizemos que ela está descontextualizada. Nesta situação, o sentido preferencial é o que, na média, primeiro se impõe para o enunciado. Óbvio, o sentido que primeiro se impõe para um receptor pode não ser o mesmo para outro. Por isso a definição tem de considerar o resultado médio, o que não impede que pela necessidade momentânea consideremos o significado preferencial para dado indivíduo.

Algumas regularidades podem ser observadas nos significados preferenciais. Por exemplo: o sentido preferencial da palavra porco costuma ser: ‘animal criado em granja para abate’, e nunca o de ‘indivíduo sem higiene’. Em outras palavras, geralmente o sentido que admite leitura imediata se impõe sobre o que teve origem em processos metafóricos, alegóricos, metonímicos. Mas esta regra não é geral. Vejamos o seguinte exemplo: ‘Um caminhão de cimento’. O sentido preferencial para a frase dada é o mesmo de ‘caminhão carregado com cimento’ e não o de ‘caminhão construído com cimento’. Neste caso o sentido preferencial é o metonímico, o que contrapõe a tese que diz que o sentido ‘figurado’ não é o ‘primeiro significado da palavra’. Também é comum o sentido mais usado se impor sobre o menos usado.


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Para certos termos é difícil estabelecer o sentido preferencial. Um exemplo: Qual o sentido preferencial de manga? O defruto ou de uma parte da roupa?

Autor: Radamés

Engenheiro curitibano pela UFPR, professor e produtor de conteúdos e ferramentas educacionais para a Internet.

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