Alien o oitavo passageiro

Futuro primitivo

Alien
Direção de Ridley Scott
1979 : EUA :  116 min
Com Tom Skerrett (Dallas)
Sigourney Weaver (Ripley),
Ian Holm (Ash) e
John Hurt(Kane)
Site oficial: www.alien-movies.com

Há milhares de anos, os contadores de histórias reuniam os membros da tribo à noite em volta da fogueira e falavam sobre aventuras mágicas onde o homem se defrontava com feras terríveis, civilizações exóticas, situações de perigo extremo e medo absoluto diante do mundo desconhecido. O que Ridley Scott fez com maestria em Alien, foi transpor esse ancestral fascínio pelo perigo desconhecido para um ambiente futurista.

Alien mistura na dose certa ficção, terror e suspense. O medo é o motor do filme e Ridley Scott é da boa escola dos diretores maniqueístas, portanto quando um alienígena é mau, ele é absolutamente mau. Prepare-se para uma luta de sobrevivência na selva galáctica, pois o inimigo é astuto e obcecado pela idéia de exterminar seus adversários, no caso, os humanos.

Alien é um filme de pouca conversa. Há cenas inteiras sem uma palavra. E quando falam entre si, os personagens estão em permanente conflito. Mais um ingrediente para aumentar a tensão. O grupo não é coeso. Cada um para seu lado e a hierarquia é transgredida o tempo todo. Somente o cientista Ash mostra uma certa frieza. Mas há um motivo para isso. Em Alien, Sigourney Weaver ainda não é a garota durona que vai estrelar os dois filmes seguintes da tetralogia, mas já rouba a cena embora nos créditos ela não conste como atriz principal. Na minha lembrança, a série Alien trouxe às telas pela primeira vez uma protagonista tuff girl. Nesse filme, porém, a tenente Ripley ainda não é reconhecida como líder no grupo. Talvez a intenção de Ridley Scott fosse passar a idéia de um grupo sem comando que fica à mercê do inimigo externo e dos espertalhões da indústria bélica. Em nenhum momento, os tripulantes mostram algum preparo para lidar com situações como aquela e as coisas correm ao sabor do improviso. Esse comportamento anárquico e cínico dos personagens seria reflexo de uma sociedade americana dividida pelas feridas da Guerra do Vietnã? Quem lucra com a anarquia na nave é o oitavo passageiro.

Esse é um caso especial de filme em que a fotografia e o cenário são fundamentais. O filme não causaria tanto impacto não fosse sua fotografia sombria e claustrofóbica e seus cenários expressionistas. Dentro da nave, temos o contraste entre as dimensões imensas do maquinário e os espaços exíguos, fechados e labirínticos onde os tripulantes circulam. Tudo é metálico e militar. Como em tecnologia as coisas são datadas, mesmo nas visões futuristas, é possível ver um ar de anos 1970 no aparato tecnológico. As imagens em 3D aramado vistas nos monitores da nave lembram o início da computação gráfica. Mesmo assim, ainda hoje esse ambiente de submarino criado pelo cenário põe os nervos do espectador à flor da pele. No planeta desconhecido, a reação é de espanto e estranheza diante de uma arquitetura sinistra e orgânica deixada pela civilização alienígena extinta.

Ridley Scott sabe que uma história não precisa e não deve ser contada por inteiro. Basta criar as cenas chave e o público vai intuir os detalhes omitidos. O roteiro de Alien leva esse preceito à risca e o resultado é um roteiro enxuto com saltos narrativos que mantêm a ação restrita ao essencial. Trata-se de uma ficção científica, mas os recursos que criam o suspense são universais. Por exemplo: um dos truques do cinema para criar suspense é fazer o espectador ver o perigo antes que o personagem que corre risco tome consciência dele. Por isso, o danado do alien adora aparecer subitamente nas costas da vítima enquanto nós espectadores desesperadamente gritamos para a tela: “olhe para trás, idiota”. Outro toque de sofisticação: o alienígena aparece em cena muito pouco, sempre em relances que não permitem conhecê-lo por inteiro, o que aguça nossa curiosidade mórbida por essa criatura sinistra. Nos filmes seguintes da série, essa regra não foi respeitada e tudo se tornou mais explícito. O resultado foi mais morbidez e menos suspense. E os parceiros ouvindo pelo rádio o desespero das vítimas? É de deixar o espectador impotente.

Nada como vivenciar o medo para exorcizá-lo. Nossa espécie adora histórias em que o grupo vence a luta pela perpetuação. Fugindo de animais selvagens na mata fechada ou combatendo alienígenas em uma galáxia distante, uma boa história cheia de suspense, terror e criatividade, capaz de mexer com nossos instintos mais básicos, sempre será bem-vinda. Do outro lado estará o inimigo, que, seguindo uma lógica bem semelhante, também quer se perpetuar.

Marcante

  • O exótico ciclo vital do alienígena nos faz pensar em nosso próprio ciclo de perpetuação. Somos apenas uma espécie a mais em um universo de possibilidades evolutivas?
  • O surgimento do alien na mesa de refeições. Ninguém jamais imaginaria aquela entrada triunfal.
  • As perseguições nos dutos de ar. Escuridão, claustrofobia, tensão e medo primitivo.

Veja também: Torcendo pelos bandidos nas séries da Netflix

Assista ao vídeo com a análise de três séries da Netflix que falam sobre transgressão.

Sua opinião me interessa