Leitor de dicionário

Há várias formas de se melhorar o conhecimento da língua. Pode-se ler a lista telefônica, classificados de jornal ou banheiro de rodoviária. Mas o dicionário é uma fonte deliciosa de informação sobre a cultura popular. Meus verbetes favoritos do Aurélio são estes:

Cachaça
[De or. controvertida.] S. f. Bras. 1. Aguardente que se obtém mediante a fermentação e destilação do mel1 (4), ou borras do melaço. [Sin. (pop. ou de gír., e bras. na maioria, muitos deles regionais): abre, abrideira, aca, aço, a-do-ó, água-benta, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana, água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguardente de cana, aguarrás, águas-de-setembro, alpista, aninha, arrebenta-peito, assovio-de-cobra, azougue, azuladinha, azulzinha, bagaceira, baronesa, bicha, bico, birita, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha, brasa, brasileira, caiana, calibrina, cambraia, cana, cândida, canguara, canha, caninha, canjebrina, canjica, capote-de-pobre, catuta, caxaramba, caxiri, caxirim, cobreira, corta-bainha, cotréia, cumbe, cumulaia, danada, delas-frias, dengosa, desmancha-samba, dindinha, dona-branca, ela, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro, filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, goró, gororoba, gramática, guampa, homeopatia, imaculada, já-começa, januária, jeribita ou jurubita, jinjibirra, junça, jura, legume, limpa, lindinha, lisa, maçangana, malunga, malvada, mamãe-de-aluana ou mamãe-de-aruana, mamãe-de-luana, mamãe-de-luanda, mamãe-sacode, mandureba ou mundureba, marafo, maria-branca, mata-bicho, meu-consolo, minduba, miscorete, moça-branca, monjopina, montuava, morrão, morretiana, não-sei-quê, óleo, orotanje, otim, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide, pilóia, pinga, piribita, prego, porongo, pura, purinha, quebra-goela, quebra-munheca, rama, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete-virtudes, sinhaninha, sinhazinha, sipia, siúba, sumo-da-cana, suor-de-alambique, supupara, tafiá, teimosa, terebintina, tira-teima, tiúba, tome-juízo, três-martelos, uca, veneno, xinapre, zuninga.] 2. P. ext. Pop. Qualquer bebida alcoólica. [M. us. no pl.] 3. Dose (3) de cachaça. 4. Bras. Espuma grossa que, na primeira fervura, se tira do suco da cana na caldeira. 5. Fig. Paixão, inclinação, gosto (por pessoa ou coisa): Tem uma cachaça pela pequena!; O cinema é a sua cachaça. ¿ S. m. 6. Bras. V. ébrio (8). Cachaça da cabeça. 1. Bras. Aguardente da cabeça.

Caipira
[De or. controvertida; tupi, poss.] S. 2 g. 1. Bras. S. Habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modos rústicos e canhestros. [Sin., sendo alguns regionais: araruama, babaquara, babeco, baiano, baiquara, beira-corgo, beiradeiro, biriba ou biriva, botocudo, brocoió, bruaqueiro, caapora, caboclo, caburé, cafumango, caiçara, cambembe, camisão, canguaí, canguçu, capa-bode, capiau, capicongo, capuava, capurreiro, cariazal, casaca, casacudo, casca-grossa, catatuá, catimbó, catrumano, chapadeiro, curau, curumba, groteiro, guasca, jeca, jacu, macaqueiro, mambira, mandi ou mandim, mandioqueiro, mano-juca, maratimba, mateiro, matuto, mixanga, mixuango ou muxuango, mocorongo, moqueta, mucufo, pé-duro, pé-no-chão, pioca, piraguara, piraquara, queijeiro, restingueiro, roceiro, saquarema, sertanejo, sitiano, tabaréu, tapiocano, urumbeba ou urumbeva.] ¿ S. m. 2. Bras. N.E. Jogo de parada, com um dado apenas, ou roleta, entre gente de condição humilde. ¿ Adj. 2 g. 3. Bras. Diz-se do caipira (1); biriba ou biriva, matuto, sertanejo. 4. Bras. Pertencente ou relativo a, ou próprio de caipira (1); biriba ou biriva, jeca, matuto, roceiro, sertanejo. 5. Bras. Diz-se do indivíduo sem traquejo social; cafona, casca-grossa. 6. Bras. Diz-se das festas juninas e do traje típico usado nessas festas. [Cf. (nas acepç. 1, 3, 4 e 5) provinciano.]


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Morrer
[Do lat. vulg. morrere, por mori.] V. int. 1. Perder a vida; exalar o último suspiro; falecer, finar-se, expirar, fazer ablativo de viagem, perecer: “Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã.” (Álvares de Azevedo, Obras Completas, I, p. 326.) [Sin., muitos deles bras., pop. ou de gíria: abotoar, abotoar o paletó, adormecer no Senhor, apagar, apitar, assentar o cabelo, bafuntar, bater a alcatra na terra ingrata, bater a(s) bota(s), bater a caçoleta, bater a canastra, bater a pacuera, bater com a cola na cerca, bater o pacau, bater o prego, bater o trinta-e-um, bater o trinta-e-um-de-roda, botar o bloco na rua, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar à casca, dar à espinha, dar a lonca, dar a ossada, dar com o rabo na cerca, dar o couro às varas, dar o último alento, defuntar, desaparecer, descansar, descer à cova, descer à terra, descer ao túmulo, desencarnar, desinfetar o beco, desocupar o beco, desviver, dizer adeus ao mundo, embarcar, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a alma a Deus, entregar a alma ao Diabo, entregar a rapadura, espichar, espichar a canela, esticar, esticar a canela, esticar o cambito, esticar o pernil, estuporar(-se), expirar, fazer ablativo de partida, fazer ablativo de viagem, fazer passagem, fechar o paletó, fechar os olhos, fenecer, finar(-se), fincar as aspas no inferno, ir para a Cacuia, ir para a cidade dos pés juntos, ir para a Cucuia, ir para bom lugar, ir para o Acre, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, ir(-se), ir(-se) desta para melhor, largar a casca, passar, passar desta para melhor, passar desta para melhor vida, pifar, pitar macaia, quebrar a tira, render a alma ao Criador, render o espírito, vestir o paletó de madeira, vestir o pijama de madeira, virar presunto.] 2. Extinguir-se, acabar(-se), findar: “A tarde morre tranqüilamente: / Na freguesia soam trindades” (Conde de Monsaraz, Musa Alentejana, p. 17) 3. Afrouxar gradualmente; desaparecer: A luz morria no horizonte; “Ontem à tarde quando o Sol morria, / A natureza era um poema santo” (Castro Alves, Obras Escolhidas, p. 97) 4. Perder (a planta) a cor e o vigor; estiolar-se. 5. Ficar suspenso; interromper-se: O grito morreu na garganta. 6. Ficar no esquecimento; perder a eficácia: As palavras dos grandes filósofos nunca morrem. 7. Terminar, acabar, findar. 8. Perder o movimento. 9. Perder o brilho; tornar-se menos vivo: A luz do lampadário entrou a morrer. 10. Bras. Autom. Parar de funcionar: De repente o automóvel morreu. T. c. 11. Acabar, terminar, chegar: A estrada morria na montanha. 12. Lançar suas águas; desaguar: O rio morre no oceano. T. i. 13. Experimentar em grau muito intenso (sentimento, sensação, desejo, etc.): morrer de amor, de tristeza, de inveja. 14. Ter grande afeição, grande amor, a: morrer pela namorada. 15. Desejar, querer ardentemente: Morria por saber o segredo da amada. 16. Bras. Gír. Satisfazer uma dívida; pagar: morrer na conta. Pred. 17. Achar-se (em determinado estado ou condição) no fim da vida: “Victor Hugo, o maior lírico da idade moderna, morreu riquíssimo.” (Olavo Bilac, Conferências Literárias, p. 258.) T. d. 18. Experimentar, sofrer: “Não poderá arrumar a sua morte. Morrerá uma morte qualquer” (Gustavo Corção, Lições de Abismo, p. 172) P. 19. V. morrer (1): “E vim a meditar em quem me cercaria, / Depois de eu me morrer, as pálpebras já frouxas.” (Cesário Verde, Obra Completa, p. 59.) 20. Padecer ou sofrer, desejando intensamente; finar-se: “o simpático alferes Carlos Magno, que era um padecente pelo belo sexo, morria-se por elas” (Virgílio Várzea, Nas Ondas, p. 148); “Sempre, sempre que te escuto / De um teu crime a confissão, / Entre vida e morte luto, / Suo, gelo, em dor me enluto, / Morro-me, perco a razão.” (Antônio Feliciano de Castilho, Os Amores, III, p. 90) [Part.: morrido e morto.] ¿ S. m. 21. Morte (1). Morrer de rir. 1. Rir às bandeiras despregadas; gargalhar. Morrer na praia. Pop. 1. Fracassar na etapa final de atividade, empreendimento, etc. Lindo de morrer. Bras. Gír. 1. Muitíssimo bonito; extraordinariamente lindo.

Gramática do PFL versus gramática do PSTU

Não erre mais!
Gramática Nunca Mais.

As duas frases acima são títulos de livros que versam sobre gramática. O primeiro é de Luiz Antonio Saconi e o segundo de Luiz Carlos de Assis Rocha. Não vou fazer a análise do conteúdo das duas obras, mas apenas de seus títulos, que são primorosos e emblemáticos.

Não erre mais!
Observem que o título começa com um retumbante NÃO. Em seguida, temos o verbo ERRAR no imperativo. A terceira palavra é MAIS, que enfatiza o fato líquido e certo de o leitor já ter errado muito e que já chegou a hora de parar de persistir no erro. Por último, uma exclamação, para garantir que o título seja lido com ênfase digamos militar. Duas conclusões tiro da leitura desse título. A primeira é que seu conteúdo se calca em uma pedagogia do NÃO e a segunda é que nele se faz uma abordagem gramatical focada na idéia de ERRO. Como o título emprega o verbo no imperativo, fica-se com a impressão que o leitor está coagido a não errar mais, que o erro gramatical é um problema muito sério e que quem erra deve se sentir muito culpado por isso.

Gramática Nunca Mais.
Percebe-se um trocadilho evidente entre este título e o do livro Tortura Nunca Mais. Admitindo o trocadilho, somos levados a conceber a Gramática como uma modalidade de tortura, ou no mínimo, como algo muito execrável, provavelmente ligado a tempos cinzentos como os da ditadura militar. Aqui temos também uma retumbante negação evidenciada pela palavra NUNCA. Pelo título, intuímos que sua finalidade não é de erigir, mas sim de demolir.

Comentários feitos, podemos usar a análise dos títulos para uma reflexão. É triste admitir, mas os estudos gramaticais estão à mercê de facções extremistas. Nos exemplos acima, temos de um lado a tradicional visão normativa, elitista, punitiva, conservadora, purista, representada pelo Saconi. Do outro lado, a visão anárquica, iconoclasta, focada na negação sistemática de Assis Rocha.

O nome das coisas

Nomes invertidos
Na Áustria tem um tal Partido da Liberdade com orientações nazistas. Meu professor de História contava que no Brasil império o Partido Conservador era liberal e o Partido Liberal era conservador. Hoje, temos um partido social democrata no governo que pratica política neo liberal.
Um escritor que percebeu estes probleminhas com os nomes foi o George Orwel. No seu romance 1984 ele criou o Ministério da Paz, cuja função era fomentar a guerra. Mas nem só na política os nomes apresentam probleminhas. Quem disse que os naturalistas eram naturais? que o poema concreto é mais concreto que qualquer outro? ou que todos os realistas retratam a realidade?
Nomes novos para coisas velhas
Quando uma coisa está desgastada, ou foi criada pela administração anterior nada melhor que lhe mudar o nome. Se me lembro bem foi o Brizola quem criou primeiro aquelas escolas de tempo integral chamadas de CIEPs (é isso?). Depois veio o Collor com uma idéia semelhante e deu o nome de CAICs. (é isso?). E pelo Brasil afora foram surgindo CAIAQUEs, CIATEs e sei lá mais o quê. Na educação, tínhamos o Colegial que virou Segundo Grau e agora é Ensino Médio. E nas empresas então: empregado, virou funcionário e agora é colaborador. Mas o salário…
Nas ciências humanas quantas teorias fazem sucesso só mudando os nomes das noções. Continuo no exemplo da educação. Aluno virou educando. Educação virou processo de ensino-aprendizagem. Professor passou a facilitador.
Conclusão: se você não tem nada a dizer mude o nome das coisas já ditas. Pode render até um novo movimento literário.
Nomes politicamente corretos
Entre os que gostam de mudar nomes que estão quietos merece uma atenção especial a turma dos politicamente corretos Lá nos EUA, o negro agora é cidadão afro-americano e bombardeio virou operação de suporte aéreo.
Aqui no Brasil não faltam politicamente corretos. Um exemplo literário: Há anos atrás a mulher que fazia poemas era chamada de poetisa. Era normal chamar a Cecília Meireles de poetisa. Mas aí apareceu alguém para achar que a palavra poetisa carrega um não sei quê de machismo. Agora o politicamente correto é chamar a Cecília Meireles de poeta, para que fique bem caracterizado que a poesia independe do sexo do autor. Ninguém chama a Rachel de Queiroz de escritor, a Gal Costa de cantor, ou a Fernanda Montenegro de ator. Mas a Adélia Prado não pode ser chamada de poetisa. Agora ela(e) é poeta. Virou anjo. Mas os anjos têm sexo?

Leis de Murphy para escritores

O número de leitores de um livro é inversamente proporcional à sua qualidade.

O número de leitores de um livro é inversamente proporcional ao seu número de páginas.

Se há uma remota possibilidade de suas palavras serem mal interpretadas elas serão.

Se não há a mínima possibilidade de suas palavras serem mal interpretadas elas ainda assim serão.

Há proporcionalidade direta entre número de palavras difíceis no seu texto e o número de vezes que a orelha da sua mãe esquenta.

Os opostos se atraem. Quanto melhor o livro, mais chances dele ser resenhado por críticos medíocres.

O melhor leitor raramente encontra um autor à sua altura, que por sua vez raramente encontra um crítico à sua altura, que por sua vez raramente encontra uma mídia à sua altura, que por sua vez raramente encontra patrocinador à sua altura, que por sua vez está nas alturas.

As chances de reconhecimento de um autor aumentam exponencialmente com sua morte.

A glória literária aumenta na exata medida em que diminui a necessidade de glória.

A atualidade é muito mais freqüente em obras antigas.

A maioria dos escritores está aquém do seu tempo.

Há grandes chances do resumo sair maior que o original.

Há uma tendência dos textos se alongarem na exata proporção da sua falta de assunto.

A dificuldade de simplificar só é superada pela facilidade de complicar.