Redação com nota máxima pode ter erro ortográfico?

A correção das redações do Enem teve sua qualidade contestada nos últimos dias por alguns órgãos de imprensa que “denunciaram” correções polêmicas. Três casos chamaram a atenção:

  • Redações com erros ortográficos (enchergar, rasoável) e de concordância receberam nota máxima de 1000 pontos.
  • Em uma redação o estudante incluiu uma receita de miojo no meio do texto e recebeu 560 pontos.
  • Em outro caso o aluno escreveu trechos do hino do Palmeiras no meio da argumentação e ganhou 500 pontos.

Nos comentários às notícias sobre o tema notei que quase todos os leitores ficaram indignados com a pontuação generosa dada a redações que ferem critérios de qualidade definidos para o Enem, entre eles respeitar a norma padrão do idioma e não fugir ao tema proposto. O curioso, porém, é que quase todos os comentários continham erros ortográficos e gramaticais e vários deles fugiam do tema em discussão, ora criticando o governo Dilma, ora zombando do Palmeiras, entre outras dispersões.

Redação Enem

Eu li a redação que trazia a receita de miojo, feita por um estudante que declarou que seu objetivo era testar o sistema de correção do Enem. Ele escreveu uma redação mediana, cuja única anormalidade é apresentar um parágrafo fora de contexto (a tal receita). O estudante fugiu ao tema? Em um dos parágrafos sim, nos outros três, não. Ele alcançou 50% dos pontos, o que me parece proporcional às falhas cometidas. Quando ele disse que queria testar o sistema, será que estava esperando nota zero? A outra redação que traz trechos do hino do Palmeiras segue o mesmo padrão: texto mediano com alguns trechos fora de contexto. Zero para o palmeirense? Não bastam o rebaixamento para a segunda divisão e corte de 50% na nota da redação?


Veja também: Todos os países do mundo em Excel

Baixe a planilha com dados de todos os países e territórios autônomos do mundo. Download Assista ao vídeo com a análise dos dados da planilha.

Eu estudei em um tempo em que cada erro na redação tirava meio ponto da nota, logo quem produzisse mais de 20 erros ortográficos ou gramaticais ficava devendo nota para o professor. Felizmente, esse tempo já vai longe e, hoje o respeito à norma padrão responde por uma pequena parcela da nota. A fatia maior dos pontos fica reservada para outras qualidades que devem estar presentes em um bom texto. Isso quer dizer que posso cometer um erro ortográfico a cada palavra que mesmo assim será possível alcançar uma boa nota; desde que em outros quesitos como clareza e articulação de ideias eu tenha um bom desempenho. Pode parecer estranho para alguns, mas é assim que funciona atualmente e eu acho que essa nova compreensão faz sentido. Sim, é possível alcançar uma boa nota em redação mesmo com alguns “inadmissíveis” erros de escrita. Estou falando de boa nota, não de nota máxima. Nesse ponto prefiro seguir o preceito de um velho professor de matemática do qual eu gostava muito. Ele deixava claro para os alunos que a nota máxima, 100 na época, era algo próximo do milagre e só estava reservada às provas perfeitas que resistissem à mais severa devassa em busca do erro mínimo e imperceptível. Cerca de 1% das redações do Enem alcançam mais de 900 pontos. Os 1000 pontos deveriam ser reservados às redações impecáveis, dignas de serem transformadas em placa e penduradas no hall da fama do Inep.

A gente ainda somos inútil?

Para comemorar seus 10 anos de governo do Brasil o partido da atual presidenta lançou uma cartilha onde exalta suas conquistas e faz comparações com a administração anterior. Obviamente, a cartilha prova que a administração atual é muuuuuuito melhor do que a antecessora. Concordo que o Brasil está melhor hoje do que há dez anos, mas não sei se credito esse avanço à administração recente ou a uma evolução natural da nossa sociedade da qual todos participam. Temos que levar em conta que o trabalho e as lutas de uma geração servem de base para a prosperidade de quem vem na sequência. Da mesma forma, não podemos ser ingênuos a ponto de pensar que o desenvolvimento de um pais é linear, sempre para melhor. Há períodos de estagnação e de decadência que se alternam com períodos de prosperidade. É por isso que prefiro fazer comparações considerando intervalos de tempo maiores.

Que país é esse?

Vivemos um momento de pleno emprego no país e isso é perceptível no meu cotidiano. Na empresa onde trabalho os funcionários novos geralmente são universitários que conquistam um emprego de nível superior bem antes da conclusão do curso. Há uma carência de mão de obra qualificada no país, situação bem diferente da que enfrentei há quase três décadas quando concluí meu curso universitário. Comecei minha vida profissional em um período que ficou conhecido como década perdida. No começo da década de 1980 governava o país um presidente general que pediu para ser esquecido, a inflação galopava e o FMI ditava as regras da política econômica no país. Na sequência, tivemos um presidente mexicano do Maranhão que lançou planos econômicos um atrás do outro, sempre causando grandes prejuízos para os desprevenidos como eu. A autoestima do brasileiro naqueles tempos estava mais por baixo do que barriga de jacaré. Para quem quiser recordar o astral da época recomendo duas músicas que sintetizam o sentimento do período: Inútil do Ultraje a Rigor e Que país é esse? da Legião Urbana.

A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
Que nóis é indigente…

Inútil – Ultraje a Rigor

No final da década de 80, o presidente bigodudo, que até hoje protagoniza a política nacional, deixou para o sucessor um legado de inflação, dívidas e escândalos, mas vamos reconhecer que ele sepultou boa parte do legado autoritário do regime militar anterior. Seu sucessor, o presidente caçador de marajás também abusou dos planos econômicos de choque que me deram bons prejuízos. Esse presidente galã se mostrou um corrupto voraz que escandalizou até a classe política. Em sua curta passagem pelo Planalto não conseguiu debelar a inflação, mas abriu nosso mercado para o mundo, o que acabou oxigenando a economia. Seu sucessor de breve atuação era um ranzinza saudosista que gostava de fuscas, mas deu uma bola dentro ao criar uma nova moeda: o real. Sua política econômica debelou a inflação galopante.

O sucessor do presidente de topete foi um intelectual com gosto pelo poder que usou um receituário econômico liberal e conseguiu a proeza em termos de Brasil de cumprir dois mandatos presidenciais por eleição direta. No governo do tucano muitas pressões da década perdida desapareceram: inflação baixou, a dívida caiu e a economia andou nos eixos apesar de algumas crises e felizmente o período dos pacotes econômicos de choque já havia passado.

No terceiro milênio assumiu o presidente operário que governou em bonança econômica. Não se sabe se esse período de estabilidade aconteceu por conta da competência do operário, se pelo fato de ter recebido a casa em ordem ou se ele surfou na onda da economia internacional que ia de vento em popa. Prefiro acreditar que foi pela soma dos fatores. O presidente operário adotou medidas que melhoraram a renda das camadas menos favorecidas da sociedade e isso criou um novo mercado para o país, que a essa altura já se sentia bem com a alcunha de país emergente.

A quem cabe o mérito pela boa fase que o Brasil atravessa? Em primeiro lugar à população que acorda cedo todo dia e vai trabalhar independente da inflação, do FMI dos escândalos ou da crise internacional. Outra coisa é certa: a prosperidade não se constrói de um ano para outro; ela é o fruto do trabalho de gerações e ninguém pode dizer que a construiu sozinha do zero.

Quando vivemos um bom momento, sempre é bom olhar para trás e depois para o futuro. O bom momento de hoje teve origem nos sacrifícios do passado. Sem se deixar levar pela euforia vamos nos manter atentos porque amanhã os ventos podem ser outros. Ainda somos inútil? Somos emergentes, muita humildade nessa hora.

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?

Que país é esse? – Legião urbana

Habilidades obsoletas combatem o sedentarismo mental

Quem nunca ouviu a frase: “Esses jovens de hoje em dia são tão inteligentes.” Realmente, a garotada de hoje é mais bem nutrida, passa mais tempo na escola e têm mais acesso à informação, mas a impressão de que eles são mais inteligentes se deve principalmente ao domínio que eles têm da tecnologia digital. Se olharmos mais atentamente, porém, vamos perceber que os jovens não podem ser considerados mais habilidosos de que seus pais; não há como estabelecer essa comparação porque os jovens desenvolvem habilidades diferentes das que seus pais dominam. Felizmente, para a nova geração, as habilidades em que eles se sobressaem são mais úteis para a vida moderna. Nem poderia ser diferente, a sociedade se encarrega de estimular competências necessárias à realidade do momento. Quem é da velha guarda não precisa cair na fossa negra da depressão; as velhas gerações também são proficientes em muitos pontos, embora muitas dessas habilidades de velho sejam de pouca utilidade em um mundo que se transforma rapidamente. Em cada época somos cobrados por habilidades diferentes. O tempo passa e algumas habilidades tornam-se obsoletas, enquanto que outras passam a ser valorizadas. Vamos exemplificar lembrando de algumas habilidades simples que os jovens de hoje estão perdendo rapidamente.

longines column wheel chronograph

  • Ler as horas em relógios de ponteiro. Com a profusão dos mostradores digitais, a capacidade de ler instrumentos com escalas analógicas está se tornando uma raridade. Pior se o relógio mostrar algarismos romanos ou se tiver apenas risquinhos indecifráveis.
  • Consultar listas em ordem alfabética. Poucos jovens conseguem consultar um dicionário impresso ou encontrar rapidamente seu nome em uma lista de aprovados no vestibular pelo simples fato de que já não dominam a organização de dados em ordem alfabética. Os computadores que encontram tudo rapidamente tornaram essa habilidade desnecessária.
  • Escrever à mão com letra cursiva. A escrita manual está se tornando rara em um mundo dominado por teclados. Imagine a dificuldade para encontrar alguém que tenha uma bela caligrafia cheia de personalidade.
  • Fazer contas de cabeça. As quatro operações aritméticas básicas ainda são ensinadas na escola, mas com objetivo de estimular o raciocínio e não por necessidade prática desse mundo repleto de calculadoras.
  • Escrever nos rigores da ortografia oficial. Dominar a ortografia do idioma materno é uma habilidade em declínio considerando que processadores de texto e navegadores de Internet contam com verificação ortográfica, sem falar na liberalidade do internetês.

Se você, caro leitor, domina as habilidades obsoletas acima não sinta-se velho; vamos lembrar de algumas habilidades do mundo da Informática que também já entraram para o rol das velharias digitais:

  • Operar computador por linha de comando. Tirando alguns xiitas do Linux, ninguém quer saber de digitar DIR para ver a lista de arquivos do computador.
  • Dominar recursos avançados do Office. Você cria documentos usando modelos e tópicos do Word? Cria macros no Excel? Parabéns, mas o que fazer com isso na era do Google Docs?
  • Criar um website. Houve um tempo em que ter um site na Internet era o must, só que o Facebook dominou geral.

Se voltássemos no tempo até a época de nossos avós, provavelmente nos sentiríamos inúteis em um mundo com necessidades totalmente diferentes. Nossos avós diriam que tablet é coisa do diabo, mas eles sabiam das coisas. Quem hoje em dia saberia fazer geleia a partir da fruta, macarrão a partir do trigo ou extrato começando pelo plantio do tomate. Meu avô Napoleão, que era praticamente analfabeto, eu considero um engenheiro informal. Ele construiu um moinho de roda d’água e uma serraria com as próprias mãos. Minha avó Judite sabia fazer pão, queijo, vinho e salame, coisas que as mocinhas de hoje pensam que crescem nas prateleiras do supermercado.

Tudo bem que não vale a pena ficar de nostalgia com as habilidades necessárias no passado, mas alguns estudiosos acham que várias dessas habilidades obsoletas são úteis para a saúde da mente. O computador estaria assumido muitas funções do cérebro humano levando as pessoas ao sedentarismo mental. Na vida moderna, a caminhada foi substituída pelo automóvel e as contas de cabeça foram eliminadas pela calculadora. Algumas pessoas estão fazendo o caminho de volta dando preferência a uma boa caminhada sempre que possível para manter a boa forma física. Não seria o caso de trazermos de volta algumas habilidades mentais que a vida moderna nos fez abandonar?

E o Camaro amarelo ficou cult

A Universidade de Brasília divulgou as obras que podem ser cobradas em seu processo seletivo e a surpresa foi a inclusão da música Camaro amarelo da dupla Munhoz e Mariano na lista. Os candidatos que participam do PAS (Programa de avaliação seriada) da UnB terão que estudar criticamente esse clássico instantâneo do sertanejo universitário para se preparar melhor para as provas. Quando ouvi a notícia me veio à cabeça o pensamento: Se a ideia é fazer a garotada valorizar a cultura popular não seria melhor escolher uma canção sertaneja de raiz? Aí descobri que Cuitelinho, também entrou na lista. Perfeito. A canção interpretada por Pena Branca e Xavantinho é um belo exemplo da poética sertaneja, mas e o Camaro amarelo? Qual a razão para esse hit com mais de cem cavalos de potência ser objeto de estudo de adolescentes desesperados em busca de vaga em uma universidade de prestígio?

camaro amarelo

Quando prestei vestibular em mil novecentos e cacetadas a lista de obras da UFPR era formada por dez livros de literatura brasileira. Naquele tempo, cultura era ler Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan, Carlos Drummond de Andrade e alguns outros. Vivíamos na ditatura da alta literatura nacional. Os tempos mudaram e hoje a UnB, por exemplo, adota uma lista mais eclética que inclui ensaios filosóficos como O príncipe de Maquiavel, músicas eruditas como Carmina Burana de Carl Orff, além de pinturas e obras arquitetônicas. Acredito que a lista da UnB é mais adequada ao ideal de formação humanística para a vida que a escola deve perseguir. Nesse ambiente moderno de abrangência e respeito à diversidade é que surge espaço para tratar da cultura popular na escola. Mesmo assim, creio que ainda não chegamos a um bom motivo para nos debruçarmos com ferramentas críticas sobre o motor do Camaro amarelo.

Estamos acostumados na escola a estudar clássicos e para ser clássico é preciso passar pela prova do tempo. Não é o caso de Camaro amarelo, lançada recentemente. Temos que lembrar, porém, que a escola de hoje sofre pressão para se dedicar aos temas atuais. Espera-se que o professor discuta em sala o que os alunos assistiram no telejornal da noite anterior. Sim, faz sentido partir do que está na boca do povo para alcançar o conhecimento formalizado. Se Camaro amarelo não é clássica certamente é o hit da vez assistido milhões de vezes no YouTube. A regra da atualidade é boa se não for aplicada a torto e a direito. Temos que nos ocupar dos clássicos também cuidando para não dar importância exagerada ao superficial, afinal o espaço da sala de aula é nobre e o tempo é curto para ser desperdiçado. Sem dúvida, Camaro amarelo pode render boas discussões em sala de aula sobre a evolução da música sertaneja, sobre consumismo e relações interpessoais frívolas. Além disso, os programas de vestibular orientam os rumos do Ensino Médio. Incluir um ponto fora da curva no currículo pode funcionar como um recado pedagógico: vocês aí na escola deem um pouco de atenção à cultura popular despidos de preconceito e com disposição para quebrar paradigmas. O que não convém concluir é que a canção seja sublime porque foi listada lado a lado com outras obras-primas. Só o tempo dirá se Camaro amarelo vai se tornar clássica como Cuitelinho.

Para arrematar, uma seleção de clássicos sertanejos:

12-12-12 12:12

Eu sei que o mundo só vai acabar no dia 21/12/2012, mas a data 12/12/12 me chama a atenção por conta de seus números repetidos. Tenho a impressão que algo inusitado pode acontecer no exato momento em que o relógio cravar cinco 12 no mostrador. Tudo bem que tive o mesmo pressentimento no ano passado por causa da aproximação de 11/11/11 11h11, mas nada de excepcional aconteceu, pelo menos nas órbitas do meu universo particular. Essa sequência de datas com repetições numéricas que começou em 01/01/01 01:01 se encerra em 2012 e só vai retornar no próximo século, considerando que não teremos 13/13/13 13h13. Por isso, apaixonados por regularidades numéricas aproveitem e abram um champanhe nessa última hora mágica do século.

Fim do mundo filme 2012

Datas com regularidades matemáticas sempre chamam a atenção. Ainda lembro de 02/04/08 16h32, de 08/09/10 11h12 e de 01/10/01 10h01.

Quem aguarda por números mágicos no calendário não deve entrar em desespero, pois eles continuarão existindo. O calendário sempre esconde regularidades numéricas interessantes, que talvez não tragam maremotos ou erupções vulcânicas, mas que encantam porque nos remetem à beleza da Matemática. Teremos outras datas misteriosas em breve. Uma dica para quem está sempre a espera de datas excepcionais; aguardem por 11/12/13 14h15 e 05/10/15 20h25. Quem realmente gosta de matemática vai gostar de 07/11/13 17h19.